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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2014, um ano excepcional

Esse ano passou depressa. Na verdade os anos estão passando cada vez mais depressa. Uma professora, em uma palestra que fui em novembro, falou sobre a subjetividade do tempo: quanto mais afazeres nos propomos, quanto mais compromissos marcamos, mais o tempo corre. Lembro que na hora comecei a divagar sobre essa subjetividade. Porque por mais que o ano tenha voado, 2013 me parece outra vida. Coisas que lembrava com clareza, já demandam esforço para vir à mente. Pessoas, com quem costumava conviver diariamente, começam a desvanecer... Primeiro o sobrenome, depois o nome, até as feições se apagarem e não restar nada. É assustador e, ao mesmo tempo, incrível. Dores e feridas que permaneciam abertas, deixaram somente a cicatriz, que vez ou outra vejo quando me olho no espelho. Pessoas que me atingiam profundamente passam por mim na rua sem que eu me dê conta de suas existências.
Nunca cresci tanto quanto esse ano - talvez seja o fato de estar saindo da adolescência e entrando nessa fase um tanto confusa, sem ser adolescente e sem ser adulta. Aprendi a aceitar minha personalidade. Aprendi a me portar. Aprendi a amar o espelho. Verdadeiramente amar. Aprendi o que é ser respeitada. Aprendi que cada ser humano é incrível e complicado, não importa o que digam. Aprendi a aceitar meus defeitos e mudar. Aprendi a ter amigos.
Também descobri outra infinidade de coisas. Descobri o que é feminismo (e salvei minha vida). Descobri a poesia e seu poder de consolo. Descobri que me importo com política um pouco mais do que faz bem para a saúde. Descobri que sei escrever e que posso até ter um futuro nisso. Mas o mais importante de tudo: descobri que as pessoas são passageiras em nossas vidas, não podemos obriga-las a ficar. Elas passam, deixam sua marca e depois seguem em frente. Algumas ficam semanas, outras meses e, poucas, anos. E não podemos sofrer por isso.
Mas gostaria de fazer alguns agradecimentos especiais. À Emanuela, por me fazer ir além. À Valquíria, por me mostrar o quão lindo é ser você mesmo. À Amanda por acreditar em mim. Ao Tom por sempre saber o que dizer. À Julia, por me ensinar o quão importante é defender o que acreditamos. À Laís, por estar sempre aqui. À minha mãe, Silvana, por me mostrar que nunca é tarde para perseguir seus sonhos. Obrigada a todos que me ajudaram a crescer esse ano.
(E quem sabe, um dia, esses agradecimentos não apareçam no início de um livro?)

domingo, 21 de dezembro de 2014

Sra. Culta

Desde novinha sempre fui perseguida pelos mais diversos "títulos". No primário, era Inteligente (as crianças pequenas ainda não são tão cruéis). No ensino fundamental, e boa parte do ensino médio, era CDF ou Nerd (e alguns bem mais pejorativos). Quando mudei de escola, no último ano, surgiu Culta. E aparentemente esse título vem com inúmeros mitos que me fizeram rir (e também chorar) nesses últimos anos.

1- Pessoas cultas não falam de sexo.
Esse dias, num grupo do whatsapp do pessoal com que eu estudei no primário, começou um assunto nada inocente (e um tanto engraçado). Quando de repente, no meio na conversa, alguém fala: "Nossa, imagina quando a Letícia, tão culta, ver isso!".
Claro, pessoas cultas não fazem sexo. Elas se reproduzem assexuadamente, formando clones. Vocês ainda vão virão o Einstein 2.0 por ai não? E o sistema límbico foi consumido pelo córtex, então não, elas não sentem prazer!

2- Pessoas cultas não bebem.
Tenho um amigo que mudou de cidade esse ano. Toda vez que fala comigo (o que se resume a umas duas no ano, porque, quanto você muda de cidade, as pessoas da outra deixam de existir), ele insiste em dizer: "Ah, da próxima vez que eu for ai, a gente marca um programa mais tranquilo...".
O único programa "menos tranquilo" que não me vejo fazendo é ir numa boate de strip ou bater um racha. Então, porque acrescentar no convite um "mais tranquilo"? Porque não falar "vamos tomar uma cerveja"?

3- Pessoas cultas não precisam de férias.
Estava no aniversário da minha prima essa semana e a irmã dela me perguntou: "Você já está de férias? Você deve odiar entrar de férias, né?". Eu parei, olhei bem para ela e respondi: "Eu também sou humana".
Porque é lógico, pessoas cultas são robôs pré-programados para funcionar infinitamente, não dormir e, basicamente, não viver. Descanso? Porque uma pessoa culta precisaria de descanso?

4- Pessoas cultas não falam palavrão.
Esse é um clássico! Quando falo um palavrão numa conversa com algum grupo não tão próximo de mim na faculdade ou com alguém da auto escola ou na aula de francês, sempre se segue um silêncio sepulcral, acompanhado de olhos arregalados e a exclamação: "Nossa, olha o jeito que você fala!", ou alguma coisa do tipo.
Mulher e culta, falar palavrão? Não pode! Que coisa feia! Assim não vai ter respeito!
Mas como diz a minha professora, se psicologo não consegue falar palavrão, não vai conseguir ouvir nada no consultório. Então, toca o foda-se e deixa para lá!

5- Pessoas cultas só vão para a balada para "estudar o ambiente".
Essa foi uma das mais engraçadas que eu já ouvi. Estávamos no aniversário de um amigo e ele queria que todos fossem com ele para uma boate ali perto. O problema é que no tal lugar só toca música sertaneja e fica sempre muito cheio, então preferi não ir. Foi quando uma colega virou para mim e disse: "Mas você, como escritora, se beneficiaria muito com isso. Você pode observar as pessoas e ter novas experiencias para escrever....".
Pessoas cultas não gostam de dançar, não gostam de gente, não gostam de barulho. Só iriam para um boate pela experiência antropológica. Será que já passou pela cabeça dessa menina que (1) eu só não gosto de sertanejo e (2) eu odeio lugares lotados com pessoas feias? Provavelmente não...

6- Pessoas cultas não perdem tempo.
Quando falo para as pessoas que, não, eu não passo a maior parte do dia lendo ou estudando, a maioria não acredita. Mas a verdade é que passei a maior parte dos meus anos de vestibular assistindo as minhas séries todos os dias e me entupindo de livro de ficção. E ainda assim passei de primeira.
Sim, às vezes eu perco meu domingo inteiro assistindo vídeos no youtube. Sim, eu tiro boa parte da minha semana para falar mal das pessoas com os meus amigos. Sim, eu fico o intervalo todo apreciando os meninos bonitos da faculdade. Sim, EU SOU UM SER HUMANO!

E esses são os mitos que envolvem os cultos, que aparentemente não são humanos, mas máquinas, que se reproduzem como amebas, vivem escondidos em suas tocas, têm o álcool como sua Kriptonita e só falam palavras que aparecem no Aurélio.

Peço perdão se ofendi alguém com essa crônica, mas a verdade é que as pessoas estão precisando de um pouco de bom senso nessa vida. Então, antes de me processar, venha conversar comigo!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Sobre o significado de uma flor

Se me dissessem, alguns anos atrás, que eu estaria onde estou hoje, provavelmente não acreditaria. Pensaria que tentavam me enganar, só para me tirar do poço em que tinha me atirado. Porque mudança era uma palavra que não existia no meu dicionário. Só havia um mundo preto e branco, no qual todos eram irreversivelmente ruins.
Mas numa manhã de sol quente, me cansei de ser a vítima de um senhor maior que não me dava resposta. Derrubei a muralha que me separava do mundo e comecei a viver. Não foi fácil, a luz me ofuscava e a todo momento eu queria voltar para debaixo das minhas cobertas, onde tudo era tão mais simples.
O pior eram as pessoas. Depois de tanto tempo num mundo só meu, havia pessoas de novo. Como colonizadores de um planeta há muito tempo abandonado. A todo momento construía novas barreiras, instintivamente. Mas dessa vez os muros tinham janelas e eu só tinha uma saída.
Com o tempo foi ficando menos complicado, aprendi a manter as expectativas baixas, pois pessoas são seres absolutamente imprevisíveis. E a cada dia me abria mais. Cada dia levantava menos obstáculos.
Até que, em certo momento, olhei para o espelho e não reconheci a imagem refletida. Meu rosto estava magro, meus olhos profundos e meus ângulos mais acentuados. Me dei conta que o tempo passara sem que eu percebesse. Demorei algumas semanas para me acostumar com aquela imagem e o que vinha com ela. Era um sentimento de pertencimento tão grande que me sufocava. Pela primeira vez eu estava feliz na minha pele. Estava feliz por ser eu mesma. Descobri que não me importava mais com o julgamento dos outros. Tudo que importava estava ali, refletido naquela imagem.
Claro que não foi tão simples assim, afinal, ninguém vive sozinho. As barreiras continuavam a surgir, mas com uma intensidade cada vez menor. Até que finalmente deixei a maior delas cair. Depois de anos, fui inundada com sensações que achava que já não existiam mais. As pessoas notaram a diferença. E as coisas começaram, lentamente, a melhorar.
Foi como uma flor, que depois de um longo processo de espera, se abre para o mundo. Ainda incompleta, mas viva. Viva pela primeira vez em muito tempo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Obsolescência Programada (das pessoas)

Sou só eu, ou nos livramos incrivelmente rápido das pessoas em nossas vidas? Pensando sobre isso esse dias, notei que nos meus restritos 18 aniversários, as pessoas que foram nas comemorações em cada ano foram completamente diferentes, tirando a família, é claro. Começou lá pelo 12º creio eu. Uso o aniversário como exemplificação por que tive uma amiga que se preocupava terrivelmente se as pessoas do aniversário dela desse ano, seriam as mesmas no ano seguinte. Bom, basta dizer que ela era minha amiga. Em um aniversário eu estava lá e no outro, não estava mais.
Quando eu era bem mais nova me apegava absurdamente às pessoas, mas isso veio com mais consequências do que eu consigo enumerar. O golpe final foi o fim de uma amizade de 6 anos. Eu ia dizer que foi do nada, mas não foi. Para falar a verdade, esses dias comecei a me questionar até que ponto aquilo foi uma amizade. Comecei a questionar até que ponto todas essas ditas amizades foram amizades. Acho que criei uma concepção muito idealizada de um conceito que é muito difícil de ser delineado. O que é um amigo? Você sabe definir? Porque eu definitivamente não sei, mas contraditoriamente acho extremamente fácil tirar da minha vida qualquer pessoa que não se encaixe nesse dito conceito.
Acho que o problema é que não deixo ninguém se aproximar o suficiente, para número um, me conhecer o suficiente para isso e numero dois, me mostrar o que realmente seria um "amigo". Mas existe um perfil de "amigo"? Porque na minha vida até hoje eu tive basicamente três tipos de pessoa: aquela que só quer te puxar para baixo, para que ela se levante; aquela que só se importa consigo mesma e não tem o menor interesse em saber anda sobre você; e aquela que está próxima de você por pura conveniência, porque você está ali e ela também e vocês se dão bem. Talvez seja por isso que é tão fácil tirar pessoas da minha vida. Sugadores e pessoas que puxam para baixo eu já não deixo entrar em primeiro lugar, porque os primeiros anos da minha adolescência foram recheados deles e aprendi a lição. Egocêntricos são suportáveis e dão boas companhias, principalmente quando você está naquela fase de querer evitar seus problemas a qualquer custo, mergulhar no ego deles pode ajudar. Mas se você quer mais, algo mútuo, minimamente profundo, eles são a pior coisa, por que das duas uma, ou vão ignorar completamente o que você sente ou vão levar você para dentro do sofrimento deles. Os de conveniência são os mais toleráveis, mas são os que nos cansam mais facilmente.
Eu posso estar estereotipando, mas essas pessoas são absurdamente comuns e sempre aparecem na minha vida. Não preciso de uma amizade superficial para conversar sobre coisas pequenas que não acrescentam em nada. E por isso tiro tantas pessoas da minha vida. Ou pelo menos creio que seja. Acho que busco por algo mais verdadeiro do que falar sobre o filme que eu vi no final de semana, ou discutir a situação socio-política no país (não que não sejam assuntos importantes). Mas creio que seja alguém que eu saiba que posso ligar em qualquer momento e falar qualquer coisa sem correr o risco de ser julgada. Alguém com quem eu não me sinta constrangida ou inibida. Uma companhia para fazer coisas aleatórias, desde assistir a um filme, até ir a uma festa meio estranha. Não acho que eu esteja fantasiando tanto assim. Mas talvez as pessoas sejam egocêntricas demais para esse tipo de relacionamento ideal que só existe na minha cabeça (e nos filmes, é claro).

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Crônica poética sobre a natureza de Você

Você está em todo lugar. Não consigo olhar para os lados sem ver sua imagem. E não gosto de me sentir presa nessa teia. O sentimento que me surge é algo para o qual eu não estou acostumada. Não sou dada a crenças sem provas. Sinto quando tenho segurança. Sentir sem ter base não é da minha natureza e por isso vou fugir até o fim. Porque se eu tivesse que ter um nome, meu nome seria Contradição. Não gosto de racionalismos para explicar os seres humanos, e entre a filosofia e a ciência, vou sempre escolher a filosofia. Mas quando se diz respeito a esse algo chamado Eu, racionalizo os mais complexos sentimentos, no limite de usar estatísticas mentais para escolher entre arriscar ou não arriscar. Talvez meu sobrenome seja Insegurança. Preciso de chão. Já flutuei no vazio e prometi que nunca voltaria. E não se passa um dia sem que me pergunte ...a que custo?.
É como se existissem três realidades conflitantes: aquela da minha cabeça, que tem a certeza absoluta do que quer (e é qualquer coisa que não seja você); aquela do meu corpo, que teima em não obedecer a suposta autoridade da cabeça, e reage instintivamente a você, reflexos se tornam mais desengonçados, músculos tremem caracteristicamente, a face fica vermelha, de modo que qualquer cognitivista se deleitaria; e aquela realidade da vida cotidiana, que fica no meio, brigando diariamente com a cabeça, como que buscando provas e mais provas de que lutar é fugir do inevitável. Porque, é isso, o tempo todo você está lá. E mesmo quando tenho a certeza mais absoluta de que é a hora, que eu estou no controle - e controle é uma palavra chave -, é tudo em vão. Porque você está sempre lá. E eu não consigo lidar, não como sempre fiz tantas vezes antes, com tantos outros caras que, racionalmente, eram a mesma coisa que você. Racionalmente.
Como aprendi nas aulas de filosofia: a prova do realismo é o fato de as coisas acontecerem sem que esperemos, a prova da realidade é a quebra da nossa expectativa. Basicamente passei anos da minha vida construindo todo um conceito sobre o que é a vida, para, de repente, você surgir e botar tudo isso abaixo. Parece que estou fazendo isso sobre você, mas é mais sobre mim do que tudo. Minha concepção de mundo é algo bastante distorcido, no qual regras que se aplicam as outras pessoas, não a mim. Sem rodeios, nunca acreditei que conceitos como paixão ou amor se aplicassem a mim. - Claro, porque eu sou tão especial! - Mas a questão é que fazia o perfeito sentido até você, porque por mais que surgisse uma ou outra pessoa, eu tinha o perfeito controle. Controle.
Mas eu sei que você é diferente. Você é mais misterioso que qualquer um que eu já conheci. Te ler é como decifrar um manuscrito em sânscrito. E isso me assusta demais, porque te olhar me dá uma segurança indescritível, mas ao mesmo tempo não sei quem você é! Mas como já disse uma sábia conhecida, talvez eu nunca vá descobrir, talvez não sabia nem quem eu seja... Não sei explicar, mas senti isso na primeira vez que te vi e por isso que é tão assustador, porque naquele dia tinha certeza que nunca mais te veria na minha vida. Mas aqui estamos nós. Você não tem ideia de como estou perdida. Estou presa entre algo eminente e algo que nunca vai acontecer, vindo de alguém que só me passa sinais contraditórios e suga todas as minhas energias. Não estou dizendo que sou a pessoa mais fácil da terra, muito pelo contrário, mas eu precisava de alguma coisa, qualquer coisa real... Mas o que eu quero dizer com real? Porque talvez nem se estiver escrito na sua testa eu vou ter certeza. Insegurança definitivamente é meu sobrenome. Você vê? Não tenho uma resposta. Toda essa caminhada é uma eterna pergunta e acho que está na hora de me acostumar com isso. Não há conclusão obvia que não seja aquela vivida. E para isso só há uma saída. Viver.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobre professores que mudam vidas

Quando pensei pela primeira vez em fazer faculdade de Psicologia, tinha na minha cabeça mil estereótipos sobre a profissão. Achava lindo abrir a boca para dizer "Eu nunca vou ser clínica", sendo que não tinha ideia do que um clínico fazia. A contradição é que eu sempre odiei qualquer tipo de preconceito e hipocrisia. É, irônico certo? De qualquer forma, sempre fui do tipo que luta pelos excluídos e isso não foi fácil durante o colégio. Outra contradição, porque, quando prestei vestibular, pensava em seguir algo na área de neuropsicologia, de preferência pesquisa. Algo que envolvesse de fato o contato com o ser humano? Deus que me livre! 
Às vezes minhas amigas implicam comigo por eu usar a frase "Quando eu entrei na faculdade, eu queria estudar... agora eu mudei de ideia", por eu ainda estar no 2º período. Mas a verdade é que o entrar na faculdade mudou muito a minha perspectiva do mundo. Talvez por eu encontrar pessoas tão parecidas comigo e que me ensinaram tanto em tão pouco tempo, talvez por ver que na verdade a faculdade é só uma réplica do ensino médio, com a diferença que se você não quiser nada com a vida, o professor vai fingir que você não existe. Mas não foi até alguns dias atrás que me dei conta do momento específico de virada. Aquele momento em que eu entendi o que queria para a minha vida. Que na verdade, até então eu passara todos aqueles anos tentando me adequar a um sistema que simplesmente não serve para mim. Mas eu não estava sozinha.
Na primeira semana de aula, o Centro Acadêmico (do qual agora eu faço parte), organizou duas palestras para a recepção dos calouros. Uma era sobre a profissão e a outra tinha o seguinte título "O combate as opressões às mulheres e às/aos LGBTs". Até então meu conhecimento sobre o assunto vinha de uma amiga lésbica e um amigo gay e uma simples curiosidade sobre o assunto. Fui sem pretensão nenhuma. Creio que vou lembrar desse dia para o resto da minha vida.
Em cerca de 2h, explicaram tantas coisas e desmistificaram tantas outras que saí de lá, honestamente, sem palavras. A professora que liderava a discussão além de extremamente competente e inteligente, não tem medo de enfrentar o sistema e dizer aquilo que pensa. Ela contou sobre diversas sujeiras que ocorrem dentro do departamento e, como "caloura ingenua", fiquei extremamente chocada. Saí da faculdade aquele dia e não conseguia tirar aquilo da minha cabeça.
Algumas semanas depois aconteceu um incidente dentro de sala de aula com uma professora, no qual ela falou de maneira tão preconceituosa que, honestamente, me fez repensar a escolha da minha profissão. Principalmente porque boa parte da sala a apoiou. Essa é a questão, professores conseguem influenciar os alunos muito facilmente, e alguns aceitam o primeiro discurso que houvem como a verdade absoluta e universal, bloqueando qualquer outra ideia.
Mas como eu disse, encontrei um grupo com as mesmas ideias que eu e aprendi mais nesses 6 meses que durante toda a minha vida. Li coisas por fora, busquei, critiquei. Hoje tenho verdades, e valores que não tinha há 6 meses. Tudo por que, uma pessoa, em 2h, me fez abrir os olhos para um mundo completamente diferente, onde a verdade que eu e você acreditamos, muitas vezes foi imposta por uma sociedade a qual convêm que pensemos acriticamente. Ainda sou cheia de preconceitos, mas quem não é? Mas acho que os meus foram realocados para coisas com as quais são válidas ter um pé atrás. Aprendi que é tudo bem não gostar de X ou Y, mas se for para criticar, deve-se entender aquilo e ter argumentos válidos. Mas além de tudo, aprendi que está tudo bem em lutar pelos excluídos e que, muitas vezes, eu sou uma dessas excluídas. E é por isso que hoje creio que meu foco, durante a graduação e além, são questões de gênero, sexualidade e feminismo. E, para surpresa geral (e sim, as pessoas demonstram uma resistência incrível em aceitar isso) a clínica.
E tudo isso por causa de uma professora que tirou 2h do seu dia para falar sobre o trabalho dela para "calouros". Espero reencontrar com ela em um futuro próximo. E espero que outras pessoas como ela existam por ai, para ensinar as pessoas a criticar verdades absolutas e a ver o mundo sob uma ótica diferente.

*não falei o nome das professoras citadas por questão de privacidade

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Beyoncé e o feminismo além da discussão


Dentre os usuais burburinhos e escândalos causados pelas premiações musicais todos os anos, o VMA 2014 trouxe uma polêmica a mais: Beyoncé levantando a bandeira do feminismo. E é claro, o debate que daí surgiu e dividiu opiniões.
Primeiro vamos ver o que o dicionário define como feminismo: "Movimento iniciado na Europa com o intuito de conquistar a equiparação dos direitos políticos e sociais de ambos os sexos", ou seja, é a mobilização das mulheres na luta em prol da igualidade entre os sexos, englobando direitos como educação, emprego, segurança... Porque é de censo comum que mulheres e homens no mesmo cargo tem diferenças salariais, e é tudo uma questão histórico-cultural.
Bom, agora que nós já entendemos o básico do feminismo vamos passar para as reações à Beyoncé. Ela virou feminista do dia para noite!  Acho que qualquer pessoa que já ouviu (ou viu a letra) uma vez na vida de If I were a boy percebe nitidamente a questão de que, se ela fosse um garoto, ela poderia "beber cerveja com os rapazes, correr atrás de garotas e ninguém se importaria porque eles ficariam ao seu lado" (Drink beer with the guys and chase after girls, I'd kick it with who I wanted and I'd never get confronted for it, cause they'd stick up for me). Eles ficariam ao lado do rapaz, diferente das mulheres, que são ensinadas a rivalizar umas com as outras, claro que com exceções.
Eu não posso levar a sério alguém que fala sobre feminismo seminua em cima de um palco. Mas é exatamente isso que faz dela a melhor pessoa para falar. Porque ser acadêmica, sentada em um escritório e defender o direito da mulher sobre o próprio corpo é muito fácil. Agora usar o corpo e a imagem como forma de trabalho, ser julgada por isso, ser o modelo de milhões de meninas e mulheres, é o que faz dela tão competente quanto qualquer acadêmica para falar do assunto. É o mesmo caso, no Brasil, da Anitta e da Valesca. As acadêmicas feministas passam a vida defendendo direito à sexualidade feminina e criticando a forma como a mídia objetifica a mulher para o prazer do homem, mas quando a Valesca canta "my pussy é o poder" ou a Anitta glorifica a mulher com "Show das poderosas", essas mesmas acadêmicas às desqualificam e desmerecem, como se "feminista" fosse um título que só algumas mulheres merecessem. Segregar dentro da minoria? Essa definitivamente não é a saída e por isso existem tantas separações e divergências dentro do feminismo, que acabam atrasando os ganhos da causa.
Ela alisa cabelo, faz dietas para ficar magra, cadê a feminista? Eu uso maquiagem, passo mil produtos no cabelo e na pele, isso quer dizer que eu não sou feminista? O corpo é dela e desde que ela faça tudo isso de maneira saudável, qual o problema? Uma das músicas do último álbum dela fala bastante disso, Pretty Hurts (assistam o vídeo), como a perfeição é tida como uma obrigação na sociedade ocidental (Blonder hair, flat chest, TV says bigger is better; South Beach, sugar free. Vogue says thinner is better).
Esse último album é um grande manifesto feminista, na minha opinião. Desde Pretty Hurts, até Grown Woman, em que ela basicamente fala que é "grande" e pode fazer o que bem quiser. ***Flawless, independente de qual versão, vem com uma apresentação do que é feminismo (I wake up looking this good and I wouldn't change it if I could). Partition e Blow são só sobre a sexualidade feminina, a primeira é inteira sobre a fantasia de uma mulher e a segunda, sobre a sua satisfação. Em Drunk in love, Beyoncé e Jay Z alertam para os relacionamentos abusivos, acho que pode não ficar muito claro, mas é indiscutível ao ver a parte em que Jay Z canta: Baby no, I don't play, now eat the cake, Annie Mae, said, "Eat the cake, Annie Mae!", em referência a Ike Turner e Tina Tuner (Anna Mae Bullock).
Em conclusão, o feminismo de Beyoncé está além de qualquer discussão. Ao invés de criar picuinhas inúteis, devemos focar no fato de quantas mulheres, e até homens, não poderão conhecer mais sobre o feminismo através dela e de outras como ela. Segregar e diminuir o outro nunca é a resposta para um movimento que busca a igualdade!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Você não tem ossos de vidro


Comecei a semana, mais precisamente o final de semana, assistindo o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Eu tenho toda uma "luta" com esse filme, mas isso fica para outro dia, o que interessa é que ele mexeu profundamente comigo. Amélie é uma garota/mulher profundamente sozinha, muito por causa de sua criação, explicada logo no inicio do filme. Ela não sabe bem como se relacionar com outras pessoas e, por isso, vê na vida pequenos prazeres que passam despercebidos pela maior parte das pessoas.
No decorrer do filme, Amélie faz amizade com um vizinho, um senhor que tem uma doença que deixa seus ossos frágeis como vidro, fazendo com que ele evite sair de casa. Para passar o tempo, ele faz réplicas de quadros de Renoir, uma por ano, e estava com dificuldades para captar o rosto de uma das mulheres, a garota do copo de água. Ela passa a ser a metáfora pela qual Amélie conversa sobre seus sentimentos.
Uma conversa me foi especialmente importante. Amélie diz que a garota pode estar distante, por estar pensando em alguém que não está ali no quadro. O senhor responde: Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente a criar laços com os que estão presentes. Amélie rebate: Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros. Mas o senhor termina sem deixar espaço para respostas: E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr em ordem?. Eu faço faculdade de Psicologia e naquele momento tudo o que eu consegui pensar era Enquanto eu arrumo a bagunça dos outros, quem vai arrumar a minha? 
Outra cena que atingiu tremendamente, essa fez com que eu me acabasse em lágrimas. Amélie tinha a felicidade ali, a um palmo de distância, tudo o que ela precisava fazer era aceitar, mas isso era difícil demais para ela. Então aquele seu vizinho grava para ela um vídeo, dizendo coisas que ela precisava ouvir e que, talvez em uma conversa, ela não fosse querer escutar.
Então, minha querida Amélie... Você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, então, com o tempo, seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então, vá em frente, pelo amor de Deus.
Em resumo é uma história sobre tomar o controle, fazer algo, deixar a posição de espectador e tomar uma atitude frente a vida. Tudo o que eu mais precisava ouvir e tudo o que eu menos sei como fazer. Até aí parece simples e completamente plausível. Ninguém deve ser passivo na própria vida.
Freud diz em um de seus textos (O mal-estar na civilização) que há duas maneiras do ser humano suprir o princípio do prazer pelo qual ele é guiado: buscar viver intensamente ou evitar o sofrimento. A verdadeira felicidade viria da primeira. Mas quando alguém passa muito tempo evitando o desprazer é extramente difícil essa busca por prazeres intensos. Porque quando se vive ao extremo, a chance de sofrimento também é muito maior. Fazer essa mudança é algo muito complexo e não há fórmulas ou receitas a se seguir. É dar a cara a tapa diariamente, se arriscando a, às vezes, apanhar.
Quem vive somente evitando o sofrimento na realidade não vive, sobrevive. É uma pseudovida na qual os prazeres tem de vir de subterfugiosos que transformem a realidade em um segundo plano. Sejam esses subterfúgios o isolamento, o mergulho no mundo das artes, ou qualquer outro, uma hora eles não são mais suficientes e a vontade de viver se sobrepõe.
Mas como sair da zona de conforto e se colocar num mundo tão instável e inconstante? Como arriscar o não saber? A maior dificuldade é o medo. As pessoas que estão nessa situação têm medo. Medo de não saber, medo de perder o controle, medo do sofrimento. Mas sem sofrimento, quem somos nós? Sem as lembranças? E como podemos ter tudo isso só sobrevivendo? A resposta é que não podemos.
O segredo é aprender a dar o primeiro passo. Porque eu tenho certeza de que uma vez fora dessa zona, nunca mais vamos querer voltar.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Crônica de um pretérito do futuro

E então, depois de tanto tempo, te vi de novo. Mesmo antes de você entrar no meu campo visual eu já sabia que ia te encontrar. Passei o dia te procurando pelas sombras, vendo seu rosto no rosto dos outros. É sempre assim. Eu sempre sinto quando vou te ver. Seu rosto e sua lembrança ficam o dia inteiro passando por minha cabeça, um pensamento que é impossível de reprimir. Até o momento que eu te vejo lá, no meu do meu caminho, como a pedra no poema de Drummond.
Confesso que não senti o que esperava, meu coração não saltou, minha boca não ficou seca, não fiquei nervosa. Acho que seu efeito sobre mim tem prazo de validade e este está finalmente chegando ao fim. Claro que não acabou, afinal, estou aqui escrevendo pra você, mesmo tendo prometido das outras vinte vezes que estas seriam as últimas. Mas é difícil... É um hábito e eu não consigo parar. Sabia que você é o único para quem eu escrevo em segunda pessoa? Com quem eu converso? Acho que sinto falta daquela proximidade, familiaridade... O que não faz sentido algum. Já faz tanto tempo! Eu não devia nem lembrar da sua existência. Mas eu lembro.
Você tirou de mim algo que até hoje não consegui recuperar. Uma confiança eterna no próximo, um amor gratuito que você tomou todo pra si e sem deixar nada para trás. Acho que minha falta de paciência com tudo e todos vem do fato de eu ainda ter tanta paciência com você. De eu ainda me preocupar, me importar.
Será que algum dia eu vou esquecer? É claro que eu vou esquecer muitas pessoas e muita coisa conforme o tempo for passando, mas achei que eu já teria te esquecido a essa altura. Sei que esqueci muita gente daquela época. Isso me fez reformular minhas teorias e começar a acreditar que sempre vou levar um pedacinho de ti, mesmo que enterrado lá no fundo. Porque sim, já desisti de contar os anos.
Às vezes tenho curiosidade de saber se você se lembra. E se lembrar-se, o quanto se importa. Mas não faz muita diferença. Eu já percebi como funcionamos. Se um dia tiver de ser nós vamos nos encontrar de novo. Seja aqui, seja em outra cidade... Seja onde for. Se for para ser, nós vamos nos encontrar e das duas uma: ou botaremos um ponto final uma história que numa devia ter começado ou reescreveremos uma que simplesmente aconteceu no momento errado.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sobre quando voltei a escrever

Sempre escrevi muito. Isso é um fato. Desde que aprendi, uso a escrita como uma espécie de terapia, para extravasar meus sentimentos, explicitar fantasias, colocar os pensamentos em ordem. No início da adolescência usava diários e mais diários. Depois passei a caderninhos específicos de tradução dos meus sentimentos, que tirei de inspiração de algum filme que eu assisti no colégio. Comecei a usar metáforas e símbolos mais complexos. Acabava deixava o caderninho rolar pela sala de aula para os colegas lerem. Começaram a falar que eu deveria ser escritora. Mas afinal, o que se sabe quando se tem 12 anos?
Depois disso descobri o tumblr, que virou praticamente meu muro das lamentações. Ao mesmo tempo era uma ótima ferramenta para treinar a escrita. E Deus sabe como eu escrevi nessa época. Ninguém sabia quem eu era e, por tanto, eu não precisava esconder nada do que eu sentia. Falar e falar e elaborar as metáforas mais loucas e reclamar da sociedade foram o ponto alto da minha vida.
Mas a partir daí escrever se tornou muito duro, muito difícil. Se antes ajudava a clarear meus pensamentos, agora só os confundia e misturava mais ainda. Passei por um momento em que quanto menos eu pensasse sobre mim, melhor. Que dirá escrever! Porque eu não sou dessas que escreve sobre personagens e cria mundos mirabolantes. Escrevo sobre o que sinto e o máximo que faço é desenvolver personagens e situações a partir disso. Nessa época entrei num vórtex negro de forma que tudo o que eu queria era fugir da minha realidade. Mergulhei mais ainda nos livros e cheguei a ler quase 80 em um ano. É, não foi um bom ano.
Mas nessa época eu tinha uma professora de português um tanto incompreendida chamada Fátima. Era por volta da metade do 2º ano e estudávamos contos e crônicas. E não é que ela me vem com um texto incrível da Martha Medeiros e uma proposta de redação na qual nós tínhamos de fazer nossa própria crônica!? Minha cabeça se fundiu naquele momento. Eram tantas possibilidades e tantos pontos de vista. Eu redescobri minha vontade e meu gosto pela escrita. Nisso já devia ter mais de ano que eu não botava uma palavra no papel.
Vendo um conto meu publicado e tudo o que devo a esse meu gosto por ler e escrever, não consigo imaginar o que teria acontecido de a Fátima tivesse mudado de ideia e passado outra tarefa para nós. Ou se eu tivesse escolhido aquele dia especifico para faltar aula, por que, sim, era a coisa que eu mais gostava de fazer no 2º ano. Como estariam as coisas hoje? Eu teria encontrado meu caminho de volta para o lápis e o papel de outro jeito? Ou seria alguém completamente diferente hoje, sem essa alma de artista, que busca em qualquer pequeno incidente um motivo para escrever?
Eu não tenho nenhuma dessas respostas. Só sei que a partir daquela tarefa, voltei a escrever com o meu coração, voltei a compartilhar meus textos com as pessoas e algumas delas até gostam de algumas coisas... Não sei se algum dia serei uma escritora. Não sei se essa coisa de só escrever sobre eu mesma deixaria. Mas independente disso tenho muito a agradecer a Prof. Fátima. Talvez um dia eu consiga dizer isso a ela.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Carta para daqui 5 ou 6 anos...

Querida Eu,
Eu não sei como estão as coisas por aí, mas por aqui estão bem insanas. Tudo está mudando rápido demais, mal dá para acompanhar. Os dias voam! Faltam duas semanas para a faculdade começar e, honestamente, eu não sei o que vou fazer. Se por um lado tudo parece novo e diferente, por outro é tão assustador! Sei que você vai estar rindo de mim agora... Mas só nós duas entendemos o que está acontecendo. Eu sei que me preparei a vida toda para isso, mas agora que chegou... Não sei se estou pronta. A questão é: eu tenho que estar!
Bom, espero que tudo tenha ocorrido como planejamos. Sei que nem tudo deu certo, porque nunca dá. Mas, tudo bem, não se martirize por isso. Eu realmente espero que tenha sido melhor que o ensino médio! Você largou todos aqueles remédios né? Por favor, diga que sim... Não sei se vai ter uma festa de formatura, nem sei se vai ser com essas mesmas pessoas que eu acabei de conhecer. Dê um abraço em todos os seus amigos, tente relembrar como foi que cada um se tornou importante. Ah, dessa vez, tente manter contato com as pessoas depois que o ano acabar!
Como vão nossos pais? Mamãe também está se formando ou já se formou? Ela entrou na faculdade, não entrou? Não, não quero pensar neles... Só a possibilidade de algo ter acontecido me gela o coração. Nossa... É incrível, e assustador, pensar em como daqui 5 anos as coisas podem estar diferentes.
Espero que alguém tenha preenchido seu coração... Só para ter certeza de que você ainda tem um. Sim, eu ainda tenho minhas dúvidas. De qualquer forma, me deixe saber! Você ainda escreve, não é? Se parou, pegue papel e caneta e volte nesse mesmo momento!
Espero que você não tenha mudado muito... Porque eu sei que mudei nos últimos anos. Não tanto por escolha, mas por que tive. Não vire algo que você não é! Mas eu tenho fé em você... Sei que você não faria isso. Você ainda lê muito não é? Porque se isso tiver mudado, definitivamente nós temos um problema...
Minha autora favorita é Clarice Lispector e a sua, querida?
Com todo o meu amor e esperança,
Letícia

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Escritor misterioso

Ingenuamente encontrei um blog na internet, um tanto parecido com o meu, cheio de devaneios, mas um pouco mais pessoal, com histórias tiradas do cotidiano, sem todo o meu usual fluxo de metáforas. Assim que li as primeiras palavras comecei a sorrir, simplesmente dialogavam comigo, não como os textos filosóficos da Clarice, que me emocionam e arrepiam, mas de uma maneira simples, como um amigo contando um caso, ou... Não sei, é difícil explicar, e olha que não costumo ficar sem adjetivos. Como se eu conhece o autor daqueles textos, o que é completamente insano, é claro.
Mas a cada palavra eu me aproximava mais, conseguia imaginar seus dedos percorrendo o teclado em busca da palavra certa. Talvez coçasse a barba enquanto revisava o texto. Talvez ficasse imaginando quem leria aquilo, porque sei que faço isso.
Lágrimas surgiram inúmeras vezes nos meus olhos, com uma simples crônica, algo que nunca havia acontecido antes. Mas era como se eu tivesse encontrado outra pessoa com algumas das mesmas neuroses que eu, como se eu tivesse recebido o luxo de dar uma olhada num eu futuro. Era difícil saber se ria ou chorava. Ou simplesmente ficava sentada encarando a tela do computador.
Enquanto as crônicas passavam, eu ficava imaginando quem seria aquela pessoa... Seria fácil descobrir, é claro, o nome estava lá era só jogar em qualquer rede social ou site de busca, mas não fiz. Qual seria a graça? O encanto se quebraria...
Quando finalmente fechei a janela, sem saber se voltaria ou não por lá, tudo o que eu conseguia pensar era É possível se apaixonar por alguém através de suas palavras?. Bom, acho que essa é uma resposta que eu nunca vou ter...

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Mundo de robôs?


Não sei quando aconteceu. Não sei se houve um ponto de virada, provavelmente não. Foi algo gradativo, uma calcificação de um órgão que não é usado, ou que apodreceu por ser usado da maneira errada. Perdão pelas metáforas, fiquei presa no romantismo e não consigo sair de lá, por isso as imagens efusivas.
O fato é que não acredito. Clichê, não? Mas acordei um dia, olhei para o céu e descobri que perdi a fé. Em mim, nas pessoas, nos sentimentos, em Deus, talvez? Busco por todos os lados mas não encontro. Sou muito nova para isso - esse tipo de crise só deveria chegar no final dos trinta. Quando me dei conta dessa nova condição, a primeira coisa que senti foi um vazio indescritível, mas como se, ao mesmo tempo, todo o universo estivesse dentro de mim.
Veja bem, eu ainda sinto, sinto muito, mais até do que deveria. E é aí que está a contradição: se eu sinto, as outras pessoas sentem. Porque então não parece? Porque quando olho para elas vejo robôs sem coração capazes das maiores atrocidades? Acho que é uma perda de fé generalizada na humanidade. Mas não é possível que existam 7 bilhões de robôs e só eu tenha sobrevivido. Não gosto de ficção cientifica.
Mas porque essa sensação não passa? Somos bombardeamos todo o tempo por desgraças, só gostaria de ver um pouco de amor... Será que ele ainda existe, em algum lugar por aí? Por favor, se você souber onde, me indique o caminho das pedras. Eu estou tão cansada... Acho que é isso. Estou simplesmente cansada de procurar ou esperar coisas de nunca chegam e que eu não sei como ir buscar por mim mesma. Faz sentido?
É como buscar um pote de ouro no fim do arco-íris. Ele estará lá?

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Formatura


E esse fim de ano se aproximando trás com ele um clima de mudança. Não estou falando das resoluções de ano novo. Esse texto é sobre algo muito especifico e que provavelmente não acontecerá com a maioria das pessoas: despedidas. No fim desse ano eu vou me formar e passar para uma fase diferente e, por mais que seja ótimo acreditar que tudo possa continuar o mesmo, é simplesmente utópico. As pessoas mudam, e isso não é ruim. Faço algo pelo qual sou criticada na maior parte do tempo, mas é meio jeito de lidar com certas situações, eu me afasto antes que a amizade ou o relacionamento se esfacele. Eu não sei se é a coisa certa a fazer, nem aconselho ninguém a fazer o mesmo, é só o que acontece comigo.
Então esse mês de novembro tem sido de sutis despedidos e certa nostalgia. Praticamente todas as pessoas do meu convívio diário foram pessoas que eu conheci esse ano e talvez isso tenha tornado as coisas mais fáceis. Não tenho tantas lembranças e momentos com elas, e apesar disso o nó na  garganta vem aumentando conforme os dias passam. Eu vou sentir falta de pessoas especificas e certos relacionamentos que não poderão ser substituídos. Mas é o momento de seguir em frente.
Quando eu converso sobre isso com outras pessoas, elas se sentem um tanto desconfortáveis pela posição que eu tomei e talvez pareça que eu estou tentando justificá-la. Mas não se pode justificar uma escolha que mal foi feita conscientemente. É algo interno, como um instinto mais forte ou algo do tipo. É como uma tentativa de tentar poupar o sofrimento que pode vir se eu persistir nesses relacionamentos e eles acabarem fracassando. É como um jogo de azar em que mede-se qual suas chances para apostar naquele que lhe dá a melhor oportunidade de vencer. Nesse caso minhas estatísticas dizem que é melhor não apostar. Mas e o prêmio? E se ele valer a pena? Eu não estou no final das contas me obrigando a terminar sozinha?
Esses questionamentos fazem com que eu pense em rever minha posição. Afinal, o ser humano não pode viver sozinho. Mas como fazer um relacionamento superar uma mudança tão brusca? Ainda mais quando está tão condicionado ao cotidiano da vida escolar. Será que fora desse ambiente teremos tantas coisas em comum? Será que, estando cada um perseguindo seu futuro, teremos tempo para lembrar o passado? Aonde fica o medo de lembrar mas ser esquecida? São tantas perguntas ligadas a esse pequeno grande momento chamado formatura. E elas só poderão ser respondidas por uma coisa: o tempo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Não acredito em fingimento poético


Não acredito em fingimento poético. Por mais que muitos autores digam que seus personagens são só isso, personagens, eu não consigo fazer isso. Eu não consigo ter essa frieza, esse distanciamento. Primeiro porque só se escreve sobre o que se conhece, seja através da vivencia ou mesmo do sonho. Segundo, mesmo quando criamos, inventamos, algo, aquilo faz parte de nós, não há como fazer essa separação.
Isso já me causou muitos problemas, acredite em mim. Em 2013 decidi escrever para as pessoas e não só para mim, como antes, mas não mudei o jeito como escrevo: se for uma crônica, sou pessoal, uso meus amigos como exemplo, dou a minha opinião sem me importar com o que vão achar; se for um conto, eu uso fatos do meu dia-a-dia, coisas que aconteceram comigo ou com pessoas próximas de mim, para me inspirar. A questão é que quando essas pessoas começaram a ler os meus textos... Bem, nem todo mundo ficou feliz. Mas eu não posso mudar isso, é quem eu sou.
Tudo o que eu escrevo tem um pouco de mim, tem um quê de autobiográfico. Pode não ter acontecido realmente, talvez seja algo com que eu sonhe... O papel tem essa propriedade mágica de poder transformar absolutamente tudo em realidade. Grande parte dos autores conseguem criar mundos completamente novos vindos inteiramente de suas imaginações, eu não. Comigo não funciona assim. Comigo se trata dos sentimentos. É sobre a alegria de se estar com os amigos num sábado a tarde, ou receber um telefonema insperado no meio da noite. Sobre se sentir triste e não poder falar. Sobre esperança. Minha escrita é sobre o ser humano e por isso eu não posso me desvencilhar dela.
Então, no meu próximo texto, preste atenção nos detalhes. Se nós nos conhecemos, talvez você se ache lá. Se não, aposto que você vai aprender um bocado sobre mim.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O maior presente para a humanidade


O que eu acho mais bonito no ser humano é a capacidade de sonhar. Não digo colocar a cabeça no travesseiro e ver imagens aleatórias mandadas pelo subconsciente durante o sono. Digo a capacidade de fazer planos, de tentar fazer as coisas darem certo, de pensar no futuro, e, basicamente, buscar a felicidade.
Tenho um amigo que quer ser físico. Desde criança, sempre quis ser cientista. Quando eu ouço ele falar sobre buracos de minhoca, Einstein e a reatividade do espaço-tempo, praticamente consigo tocar sua alegria. Seus olhos brilham, o sorriso abre e não se fecha, ele simplesmente não consegue parar de falar. Isso é amor, um amor que transcende nossa vã compreensão e é simplesmente lindo de presenciar.
É incrível não só ter um sonho, mas ter a coragem de falar sobre ele. Eu tenho muitos sonhos e acredito que a maioria das pessoas também tenha, mas é muito difícil falar em voz alta sem se achar um pouco idiota. Mas existem casos que provam que sonhar vale a pena! Eu e minha amiga nos conhecemos bem novinhas e sempre falamos sobre a nossa vontade de conhecer outros países, morar fora e, principalmente, estudar fora. Depois de anos teorizando e imaginando, finalmente aconteceu. Ela embarcou numa avião para a França e vai ficar um ano por lá.
Acho que esse tipo de coisa, esses pequenos milagres, fazem a vida valer a pena. E eles são o motivo pelo qual eu não acho que a raça humana está totalmente perdida. Se nós ainda temos a capacidade de algo tão puro quanto o sonho, ainda temos uma chance. Sempre fui uma sonhadora, mas depois de um tempo fui crescendo e provavelmente ganhando um pouco do cinismo dos meus pais, algumas coisas pareciam um pouco demais. Mas agora eu entendo que para ser sonho não precisa ser grandioso e, mesmo que seja, não quer dizer que seja impossível. Agora eu tomo coragem e digo: meu sonho é estudar o ser humano, entender o que se passa na cabeça dessa espécie rara de 7 bilhões de indivíduos e entender como eles se organizam em algo tão complexo quanto sociedade, e, por isso, vou fazer faculdade de Psicologia e, em seguida, de Ciências Sociais. Meu sonho é ser escritora e esse é provavelmente meu sonho mais escondido. Ele só tomou coragem para sair no dia que, por alguma razão, eu resolvi escrever um conto e mandar para uma editora e, surpresa: ele foi aceito. Acho que levou cerca de 3 meses para que eu aceitasse totalmente que eu me tornara, para todos os efeitos, uma escritora. A partir daí eu passei a me dedicar mesmo, para o que antes era um sonho já tomado como fracassado. 
Muitas vezes o medo nos impede de sonhar alto, de dar uma chance, de tentar... Mas no final das contas, vale a pena arriscar por esse presente dado ao ser humano. No final das contas, não está tudo tão perdido assim.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Autor não. Escritor, por favor.


Li um texto de um jornalista esses dias em que ele afirma que "É fácil ser autor. Difícil é escrever". Tirando todo o conteúdo do texto, eu concordo com a frase.
Não quero ser autora, ser autor é fácil, ser autora é só assinar o nome. Não quero ser autora nunca. Quero ser escritora para sempre! Porque escrever é verbo, autor é o que? Mero complemento? Autor de alguma coisa. Não quero isso. Escritor é um estado de espirito. Hoje acordei escritor. Autor é vender. Escritor é expor a alma.
Hoje temos muitos autores, mas pouquíssimos escritores. Desde que meu escritor, digo, autor preferido disse que escreve o que vende, perdi um pouco de esperança na humanidade. Escrevo desde os 10 anos, vê lá se aos 10 anos eu ia querer vender alguma coisa? Escrevo porque é mais barato que terapia. Se alguém quiser ler, bom. Se alguém quiser comprar, melhor ainda, porque afinal, uma leitora precisa de dinheiro para seus livros.
É por essas e outras que não gosto de métrica, rima, regras... Ritmo é coisa de música. Para mim, texto pensado demais, não vem da alma. Gosto de coisas que vem da alma. Não que eu não goste de um "O Corvo" de Edgar Allan Poe ou de um paradoxo de Camões, mas ler Clarice, por exemplo, é diferente. Simplesmente diferente. Bate na alma e é absorvido, como mágica, ou como física.
Meus textos são assim, ou pelo menos eu tento fazer com que sejam. Fluxo continuo de pensamentos. Como se o leitor, ou quem quer que se interesse em ler, estivesse entrando em minha mente e, metaforicamente, em meu coração. Meus amigos diriam que é coisa de psicologa, coisa que ainda nem sou, pois eu digo que é coisa de escritor. Escritor de verdade, aquele que fazer com a alma.
Assim, nunca serei autora. Não quero, não vou. Sou criança teimosa. Mas se um dia eu pagar minha língua, que seja por consequência e não por escolha. Escritor não corrompe a alma. Quando corrompe deixa de ser escritor, porque perde a essência da verdade.
Esse texto é uma prece silenciosa para que o futuro nos reserve mais escritores e menos autores. Mais almas livres e menos receptáculos vazios.

Publicado originalmente no blog Escolhendo Seu Livro.