Você está em todo lugar. Não consigo olhar para os lados sem ver sua imagem. E não gosto de me sentir presa nessa teia. O sentimento que me surge é algo para o qual eu não estou acostumada. Não sou dada a crenças sem provas. Sinto quando tenho segurança. Sentir sem ter base não é da minha natureza e por isso vou fugir até o fim. Porque se eu tivesse que ter um nome, meu nome seria Contradição. Não gosto de racionalismos para explicar os seres humanos, e entre a filosofia e a ciência, vou sempre escolher a filosofia. Mas quando se diz respeito a esse algo chamado Eu, racionalizo os mais complexos sentimentos, no limite de usar estatísticas mentais para escolher entre arriscar ou não arriscar. Talvez meu sobrenome seja Insegurança. Preciso de chão. Já flutuei no vazio e prometi que nunca voltaria. E não se passa um dia sem que me pergunte ...a que custo?.
É como se existissem três realidades conflitantes: aquela da minha cabeça, que tem a certeza absoluta do que quer (e é qualquer coisa que não seja você); aquela do meu corpo, que teima em não obedecer a suposta autoridade da cabeça, e reage instintivamente a você, reflexos se tornam mais desengonçados, músculos tremem caracteristicamente, a face fica vermelha, de modo que qualquer cognitivista se deleitaria; e aquela realidade da vida cotidiana, que fica no meio, brigando diariamente com a cabeça, como que buscando provas e mais provas de que lutar é fugir do inevitável. Porque, é isso, o tempo todo você está lá. E mesmo quando tenho a certeza mais absoluta de que é a hora, que eu estou no controle - e controle é uma palavra chave -, é tudo em vão. Porque você está sempre lá. E eu não consigo lidar, não como sempre fiz tantas vezes antes, com tantos outros caras que, racionalmente, eram a mesma coisa que você. Racionalmente.
Como aprendi nas aulas de filosofia: a prova do realismo é o fato de as coisas acontecerem sem que esperemos, a prova da realidade é a quebra da nossa expectativa. Basicamente passei anos da minha vida construindo todo um conceito sobre o que é a vida, para, de repente, você surgir e botar tudo isso abaixo. Parece que estou fazendo isso sobre você, mas é mais sobre mim do que tudo. Minha concepção de mundo é algo bastante distorcido, no qual regras que se aplicam as outras pessoas, não a mim. Sem rodeios, nunca acreditei que conceitos como paixão ou amor se aplicassem a mim. - Claro, porque eu sou tão especial! - Mas a questão é que fazia o perfeito sentido até você, porque por mais que surgisse uma ou outra pessoa, eu tinha o perfeito controle. Controle.
Mas eu sei que você é diferente. Você é mais misterioso que qualquer um que eu já conheci. Te ler é como decifrar um manuscrito em sânscrito. E isso me assusta demais, porque te olhar me dá uma segurança indescritível, mas ao mesmo tempo não sei quem você é! Mas como já disse uma sábia conhecida, talvez eu nunca vá descobrir, talvez não sabia nem quem eu seja... Não sei explicar, mas senti isso na primeira vez que te vi e por isso que é tão assustador, porque naquele dia tinha certeza que nunca mais te veria na minha vida. Mas aqui estamos nós. Você não tem ideia de como estou perdida. Estou presa entre algo eminente e algo que nunca vai acontecer, vindo de alguém que só me passa sinais contraditórios e suga todas as minhas energias. Não estou dizendo que sou a pessoa mais fácil da terra, muito pelo contrário, mas eu precisava de alguma coisa, qualquer coisa real... Mas o que eu quero dizer com real? Porque talvez nem se estiver escrito na sua testa eu vou ter certeza. Insegurança definitivamente é meu sobrenome. Você vê? Não tenho uma resposta. Toda essa caminhada é uma eterna pergunta e acho que está na hora de me acostumar com isso. Não há conclusão obvia que não seja aquela vivida. E para isso só há uma saída. Viver.
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