Eu não acordo maquiada. Não fico bem de cabelo curtinho e franjinha no meio da testa. Não vou ao cinema ver a reação das pessoas e muito menos fico imaginando quantas pessoas estão tendo orgasmos no momento. Eu não sou Amélie. E a vida não é um filme francês.
Eu queria que fosse. Realmente queria que meu príncipe viesse me buscar na sua lambreta para voarmos em direção ao horizonte, com sorrisos no rosto. Mas enquanto o filme é amarelo e brilhante, a vida real é em tons de sépia e olhe lá.
Sei quem sou e não posso mudar. Toda vez que tento, que abro a mínima brecha, vejo que as coisas são exatamente como eu pensava. Não importa o que o resto do mundo me diga. Creio que vivo em uma realidade paralela. Vejo e participo de tudo por aqui, mas as regras não se aplicam a mim. Ou talvez eu seja de uma subespécie muito específica da raça humana, daqueles que foram feitos para ser brilhantes e miseráveis. Lindos brilhantes miseráveis. Ou talvez a dor seja proposital. Para que eu escreva e chore e estude. Porque vejo nitidamente quem vou ser aos 80 anos. 20 livros publicados, morrendo sozinha em um asilo. Eu sei. Por mais que eu tente fazer diferente, eu simplesmente sei. Sou da espécie dos pensadores, aos quais não se dá o direito de nada mais. É isso que sinto. Tenho um dom maravilhoso, sei que serei uma profissional brilhante, mas um ser humano deplorável.
Posso contar as tentativas em minha cabeça. Cada murro na parede. Se escrever uma biografia, um dia, vou contar tudo, apontar cada dedo e dizer: "Parabéns, você me fez chegar até aqui". Mas não quero acabar como Sylvia Plath, ou Virginia Woolf... Ah, não. Se meu destino é esse, que assim seja. Vou viver o máximo possível e fazer o máximo possível. Tentar entender a logica desse mundo, assim como todos os filósofos da história tentaram. Tentar entender o ser humano. HA! Foi para isso que me escolheram? Quão patético. Eu, logo eu, tentando ajudar alguém a se entender.
Só consigo rir. É tudo tão pateticamente ridículo... É ridículo como a vida anda em círculos e se repete. É tão triste que chega a ser cômico. Já cansei de chorar e me compadecer e me vitimizar. É ridículo. Me pergunto se todos percebem quanto a vida é ridícula. Tão ridícula quanto sair daqui, da minha cidadezinha enfurnada no interior de Minas, para encontrar meu vizinho de porta na França. E acontece. Eu juro.
Parece que só eu percebo o quanto a vida é ridícula. Você nasce, é ensinado como viver e depois morre. E quando tudo a sua volta vai contra esse ensinamento? Sou mulher e não sei (nem nunca vou saber) cozinhar. Não vou me casar. Vou ser a tia dos gatos. Qual o problema? Porque isso deveria ser um problema? E se o ser humano é tão individualista, ótimo! Cada um que funde sua república, no seu pequeno apartamento, e vá ser feliz sozinho. Se o ser humano é tão individualista, porque precisa tanto assim de uma sociedade na qual existir? Acho que é isso. Sou a minha própria sociedade e não preciso de outra para existir! Esse é meu super poder! Não existo em sociedade. Pessoas são chatas, imprevisíveis e cansativas. Todos deveriam usar uma placa na testa dizendo o que pensam. Aí eu poderia viver bem.
Mas não é assim. Eu não sou a Amélie Poulain. Nem Sylvia Plath. Nem Virginia Woolf. Sou alguém que não sabe o que é, nem sua função nesse mundo maluco. E tá de saco cheio de tentar descobrir. De saco cheio de tentar. Vou fazer o que é fácil e ficar na minha zona de conforto. Porque sou da espécie de pessoas programadas para isso. Fim. E foda-se quem disser que estou errada. Tenho o direito de ser amarga e essa é minha escolha. Brilhante e amarga. Se a vida não é doce, porque diabos eu deveria ser?
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terça-feira, 25 de novembro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Sobre o significado de uma flor
Se me dissessem, alguns anos atrás, que eu estaria onde estou hoje, provavelmente não acreditaria. Pensaria que tentavam me enganar, só para me tirar do poço em que tinha me atirado. Porque mudança era uma palavra que não existia no meu dicionário. Só havia um mundo preto e branco, no qual todos eram irreversivelmente ruins.
Mas numa manhã de sol quente, me cansei de ser a vítima de um senhor maior que não me dava resposta. Derrubei a muralha que me separava do mundo e comecei a viver. Não foi fácil, a luz me ofuscava e a todo momento eu queria voltar para debaixo das minhas cobertas, onde tudo era tão mais simples.
O pior eram as pessoas. Depois de tanto tempo num mundo só meu, havia pessoas de novo. Como colonizadores de um planeta há muito tempo abandonado. A todo momento construía novas barreiras, instintivamente. Mas dessa vez os muros tinham janelas e eu só tinha uma saída.
Com o tempo foi ficando menos complicado, aprendi a manter as expectativas baixas, pois pessoas são seres absolutamente imprevisíveis. E a cada dia me abria mais. Cada dia levantava menos obstáculos.
Até que, em certo momento, olhei para o espelho e não reconheci a imagem refletida. Meu rosto estava magro, meus olhos profundos e meus ângulos mais acentuados. Me dei conta que o tempo passara sem que eu percebesse. Demorei algumas semanas para me acostumar com aquela imagem e o que vinha com ela. Era um sentimento de pertencimento tão grande que me sufocava. Pela primeira vez eu estava feliz na minha pele. Estava feliz por ser eu mesma. Descobri que não me importava mais com o julgamento dos outros. Tudo que importava estava ali, refletido naquela imagem.
Claro que não foi tão simples assim, afinal, ninguém vive sozinho. As barreiras continuavam a surgir, mas com uma intensidade cada vez menor. Até que finalmente deixei a maior delas cair. Depois de anos, fui inundada com sensações que achava que já não existiam mais. As pessoas notaram a diferença. E as coisas começaram, lentamente, a melhorar.
Foi como uma flor, que depois de um longo processo de espera, se abre para o mundo. Ainda incompleta, mas viva. Viva pela primeira vez em muito tempo.
Mas numa manhã de sol quente, me cansei de ser a vítima de um senhor maior que não me dava resposta. Derrubei a muralha que me separava do mundo e comecei a viver. Não foi fácil, a luz me ofuscava e a todo momento eu queria voltar para debaixo das minhas cobertas, onde tudo era tão mais simples.
O pior eram as pessoas. Depois de tanto tempo num mundo só meu, havia pessoas de novo. Como colonizadores de um planeta há muito tempo abandonado. A todo momento construía novas barreiras, instintivamente. Mas dessa vez os muros tinham janelas e eu só tinha uma saída.
Com o tempo foi ficando menos complicado, aprendi a manter as expectativas baixas, pois pessoas são seres absolutamente imprevisíveis. E a cada dia me abria mais. Cada dia levantava menos obstáculos.
Até que, em certo momento, olhei para o espelho e não reconheci a imagem refletida. Meu rosto estava magro, meus olhos profundos e meus ângulos mais acentuados. Me dei conta que o tempo passara sem que eu percebesse. Demorei algumas semanas para me acostumar com aquela imagem e o que vinha com ela. Era um sentimento de pertencimento tão grande que me sufocava. Pela primeira vez eu estava feliz na minha pele. Estava feliz por ser eu mesma. Descobri que não me importava mais com o julgamento dos outros. Tudo que importava estava ali, refletido naquela imagem.
Claro que não foi tão simples assim, afinal, ninguém vive sozinho. As barreiras continuavam a surgir, mas com uma intensidade cada vez menor. Até que finalmente deixei a maior delas cair. Depois de anos, fui inundada com sensações que achava que já não existiam mais. As pessoas notaram a diferença. E as coisas começaram, lentamente, a melhorar.
Foi como uma flor, que depois de um longo processo de espera, se abre para o mundo. Ainda incompleta, mas viva. Viva pela primeira vez em muito tempo.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
What Went Wrong?
Sentada na frente do computador, às 4 da manhã, discuto comigo mesma a eficiência do que estou fazendo. Sei que é um esforço inútil, provavelmente nunca vou achar o que procuro. É demais esperar reconhecer uma música depois de tantos anos. E mesmo que por algum milagre eu consiga encontrar a maldita, que bem vai trazer? Nem eu, nem ele sentimos as mesmas coisas daquela época. De que adianta mexer numa ferida tão antiga?
Mas não se passa um mês sem que eu pense nela pelo menos uma vez. Às vezes por instantes, às vezes por dias e dias seguidos. Honestamente, a maior parte do tempo não entendo essa obsessão. Creio que seja o que a música representou. Ali, naquele momento, foi o que ele utilizou para falar o que sentia. O fato de eu não conseguir lembrar, deixa uma última parte a ser descoberta dessa trama que acabou há tantos anos.
Acho que o problema maior não é estar presa a música, e sim a história. Mas isso é fácil de explicar. Aquela foi a única vez que alguém me amou pura e verdadeiramente. Por mais que absolutamente tudo tenha dado errado, foi o único momento em que eu me senti querida e é muito difícil abrir mão disso. Ainda mais nessa cidade, onde todos se encontram a cada esquina. O sentimento diminuiu desde então, a ponto de ser quase inexiste. Já posso encontrá-lo na rua sem ter um ataque de pânico. Mas sei que nunca vou conseguir esquecer. Claro que aprendi na faculdade, e na terapia, o poder das palavras, que quanto mais repetir "nunca vou conseguir", nunca conseguirei mesmo. Mas é um fato, já desisti de lutar contra ele há muito tempo. Essa foi uma característica que adquiri com a maturidade: parei de lutar causas inúteis.
Eu também parei de falar dele. Meus amigos de hoje não fazem ideia de sua existência. É como se eu quisesse manter essa figura romanceada dele só para mim, para usar nos meus livros e como fonte de inspiração. Já o desfigurei tanto na minha mente, que esse "ele imaginário" é provavelmente só uma sombra do real.
Não desisti de procurar a música. Quando comecei, algumas horas antes, pela letra "A" da tal banda, senti um certo desconforto e só então desconfiei porque... Talvez eu deve-se ter começado pela letra "W". Definitivamente pela letra "W". Ao olhar os títulos das músicas, de repente aparece What Went Wrong? e algo dentro de mim borbulha. É a música. De alguma forma eu sei que é a música. Depois de todos aqueles anos passando pela mesma página, finalmente enxerguei. É a música! Abro a letra e a certeza é confirmada. I can't forgive, can't forget, can't give in. What went wrong? 'Cause you said this was right. You fucked up my life. - eu nunca disse que era uma música de amor. Consigo lembrar nitidamente quando li a letra na época e me perguntei se era para mim. Ah, doce inocência!
Ainda outro dia me peguei pensando sobre como seria reencontrá-lo, se não agora, daqui há alguns anos. Para saber notícias, agradecer por tudo. Porque todo o fervor, o rancor e mesmo o amor desapareceram há bastante tempo. Sei que for para ser, vai acontecer, se não... Mas pode ter certeza que vou levá-lo comigo para sempre, mesmo que seja somente como um dos personagens dos meus livros.
Mas não se passa um mês sem que eu pense nela pelo menos uma vez. Às vezes por instantes, às vezes por dias e dias seguidos. Honestamente, a maior parte do tempo não entendo essa obsessão. Creio que seja o que a música representou. Ali, naquele momento, foi o que ele utilizou para falar o que sentia. O fato de eu não conseguir lembrar, deixa uma última parte a ser descoberta dessa trama que acabou há tantos anos.
Acho que o problema maior não é estar presa a música, e sim a história. Mas isso é fácil de explicar. Aquela foi a única vez que alguém me amou pura e verdadeiramente. Por mais que absolutamente tudo tenha dado errado, foi o único momento em que eu me senti querida e é muito difícil abrir mão disso. Ainda mais nessa cidade, onde todos se encontram a cada esquina. O sentimento diminuiu desde então, a ponto de ser quase inexiste. Já posso encontrá-lo na rua sem ter um ataque de pânico. Mas sei que nunca vou conseguir esquecer. Claro que aprendi na faculdade, e na terapia, o poder das palavras, que quanto mais repetir "nunca vou conseguir", nunca conseguirei mesmo. Mas é um fato, já desisti de lutar contra ele há muito tempo. Essa foi uma característica que adquiri com a maturidade: parei de lutar causas inúteis.
Eu também parei de falar dele. Meus amigos de hoje não fazem ideia de sua existência. É como se eu quisesse manter essa figura romanceada dele só para mim, para usar nos meus livros e como fonte de inspiração. Já o desfigurei tanto na minha mente, que esse "ele imaginário" é provavelmente só uma sombra do real.
Não desisti de procurar a música. Quando comecei, algumas horas antes, pela letra "A" da tal banda, senti um certo desconforto e só então desconfiei porque... Talvez eu deve-se ter começado pela letra "W". Definitivamente pela letra "W". Ao olhar os títulos das músicas, de repente aparece What Went Wrong? e algo dentro de mim borbulha. É a música. De alguma forma eu sei que é a música. Depois de todos aqueles anos passando pela mesma página, finalmente enxerguei. É a música! Abro a letra e a certeza é confirmada. I can't forgive, can't forget, can't give in. What went wrong? 'Cause you said this was right. You fucked up my life. - eu nunca disse que era uma música de amor. Consigo lembrar nitidamente quando li a letra na época e me perguntei se era para mim. Ah, doce inocência!
Ainda outro dia me peguei pensando sobre como seria reencontrá-lo, se não agora, daqui há alguns anos. Para saber notícias, agradecer por tudo. Porque todo o fervor, o rancor e mesmo o amor desapareceram há bastante tempo. Sei que for para ser, vai acontecer, se não... Mas pode ter certeza que vou levá-lo comigo para sempre, mesmo que seja somente como um dos personagens dos meus livros.
domingo, 11 de maio de 2014
O outro lado da cama
Acordei sentindo as lágrimas descendo nas minhas bochechas. Todo o sonho agora era tão real tão vivo. Será que fizera certo ao trancafiar minhas pilulas na gaveta? Estiquei os braços, mas não havia ninguém ali. O outro lado da cama estava arrumado e gelado, como sempre estivera. Fechei meus olhos. Se me concentrasse o suficiente conseguia sentir o calor nos meus braços.
Os braços dele nos meus, me abraçando por trás, sussurrando palavras doces, às vezes incompreensíveis, mas tão incrivelmente doces. Seus óculos esbarrando e se emaranhando nos meus cabelos, até que eu finalmente desisti e os arranquei jogando em cima do criado. Eu sabia que ele não podia me ver direito, então tinha que me manter perto, bem perto, de forma que ele não perdesse um detalhe.
Virei bruscamente para que ele pudesse ver meu rosto, meus olhos. Passei a mão por sua barba, seus cílios, suas sobrancelhas, lentamente, absorvendo cada detalhe, porque dentro de mim eu sabia que aquilo não ia durar. De alguma forma, eu sempre sei. Eu sempre sei de tudo. É uma benção, mas também uma maldição.
Suas mãos seguravam firmemente a base de minhas costas, deixando minhas mãos livres para percorrerem seus ombros, seus braços, suas costas, desde o pescoço até a lombar.
Escalei até seu ouvido direito e disse tudo, tudo o que sempre ficou entalado aqui dentro e nunca saiu. Contei como me senti mais leve no momento em que nos conhecemos, como parecia certo nós dois juntos, lembrei sobre nossas cartas e nossas músicas e nossas risadas e nossos segredos, agradeci por tudo o que aprendi e pela pessoa que me tornei. Beijei cada parte do seu rosto. Deixei minha alma se despedir e aproveitar cada último instante. Quando dei o último beijo, nos seus lábios, e me afastei para ver seu rosto, seus traços já não estavam mais nítidos. Pouco a pouco ele desaparecia... Seus braços já não estavam mais ao meu redor, eu não podia mais ouvi-lo. As lágrimas vieram, eu chamei, mas ninguém respondeu.
Fechei os olhos por um momento, quando os abri, estava de volta ao mesmo quarto cinza de sempre. Tudo não tinha passado de um sonho. A cama estava mesmo vazia. Podia fantasiar o quanto quisesse, ela continuaria assim, gelada, porque mesmo sendo muito bem resolvida na minha solidão, eu me recuso a dormir no meio da minha cama. Porque seria negar espaço para a ocupação do outro lado. Seria como fechar a única forma de abertura que reconheço. E mesmo que até lá ele permaneça gelado e eu continue a fantasiar... Eu me nego a dormir no meio da cama.
Os braços dele nos meus, me abraçando por trás, sussurrando palavras doces, às vezes incompreensíveis, mas tão incrivelmente doces. Seus óculos esbarrando e se emaranhando nos meus cabelos, até que eu finalmente desisti e os arranquei jogando em cima do criado. Eu sabia que ele não podia me ver direito, então tinha que me manter perto, bem perto, de forma que ele não perdesse um detalhe.
Virei bruscamente para que ele pudesse ver meu rosto, meus olhos. Passei a mão por sua barba, seus cílios, suas sobrancelhas, lentamente, absorvendo cada detalhe, porque dentro de mim eu sabia que aquilo não ia durar. De alguma forma, eu sempre sei. Eu sempre sei de tudo. É uma benção, mas também uma maldição.
Suas mãos seguravam firmemente a base de minhas costas, deixando minhas mãos livres para percorrerem seus ombros, seus braços, suas costas, desde o pescoço até a lombar.
Escalei até seu ouvido direito e disse tudo, tudo o que sempre ficou entalado aqui dentro e nunca saiu. Contei como me senti mais leve no momento em que nos conhecemos, como parecia certo nós dois juntos, lembrei sobre nossas cartas e nossas músicas e nossas risadas e nossos segredos, agradeci por tudo o que aprendi e pela pessoa que me tornei. Beijei cada parte do seu rosto. Deixei minha alma se despedir e aproveitar cada último instante. Quando dei o último beijo, nos seus lábios, e me afastei para ver seu rosto, seus traços já não estavam mais nítidos. Pouco a pouco ele desaparecia... Seus braços já não estavam mais ao meu redor, eu não podia mais ouvi-lo. As lágrimas vieram, eu chamei, mas ninguém respondeu.
Fechei os olhos por um momento, quando os abri, estava de volta ao mesmo quarto cinza de sempre. Tudo não tinha passado de um sonho. A cama estava mesmo vazia. Podia fantasiar o quanto quisesse, ela continuaria assim, gelada, porque mesmo sendo muito bem resolvida na minha solidão, eu me recuso a dormir no meio da minha cama. Porque seria negar espaço para a ocupação do outro lado. Seria como fechar a única forma de abertura que reconheço. E mesmo que até lá ele permaneça gelado e eu continue a fantasiar... Eu me nego a dormir no meio da cama.
sábado, 12 de abril de 2014
Quando?
- Vamô lá, me beija!
- Não... Tá doida? Porque?
- Por que sim, ora!
- Eu to falando sério, Manu...
- Eu também.
- Tá, mas só uma vez.
- ...
- ...
- ...
- Pronto. E ai?
- "E ai" o que?
- Foi bom?
- Sei lá...
- Como assim, "sei lá"?
- Ai Carlos, "sei lá" é "sei lá".
- Manu, levanta essa cabeça, olha pra mim...
- Para com isso..!
- Você tá sentindo alguma coisa?
- Não! Esse é o problema. Eu não to sentindo porra nenhuma! Será que eu sou algum tipo de psicopata? Tem algo de errado comigo?
- Do que você tá falando?
- Do beijo. Eu não senti nada!
- ...
- Fala alguma coisa.
- O que você quer que eu fale?
- Qualquer coisa, Carlos... Qualquer coisa que me faça sentir. Me chama de qualquer nome, me dá um tapa sei lá...
- Não é assim que funciona, Manu.
- Não me abraça, me explica.
- Não tem como explicar. Ou é ou não é. Ou se sente ou não se sente...
- Mas eu to cansada disso... Não aguento mais ser de pedra.
- Um dia alguém vai vir e quebrar todo esse gelo a sua volta . Mas não é quando você quiser... De repente, um dia, vai acontecer.
- Mas quando, Carlos? Quando...?
- Não... Tá doida? Porque?
- Por que sim, ora!
- Eu to falando sério, Manu...
- Eu também.
- Tá, mas só uma vez.
- ...
- ...
- ...
- Pronto. E ai?
- "E ai" o que?
- Foi bom?
- Sei lá...
- Como assim, "sei lá"?
- Ai Carlos, "sei lá" é "sei lá".
- Manu, levanta essa cabeça, olha pra mim...
- Para com isso..!
- Você tá sentindo alguma coisa?
- Não! Esse é o problema. Eu não to sentindo porra nenhuma! Será que eu sou algum tipo de psicopata? Tem algo de errado comigo?
- Do que você tá falando?
- Do beijo. Eu não senti nada!
- ...
- Fala alguma coisa.
- O que você quer que eu fale?
- Qualquer coisa, Carlos... Qualquer coisa que me faça sentir. Me chama de qualquer nome, me dá um tapa sei lá...
- Não é assim que funciona, Manu.
- Não me abraça, me explica.
- Não tem como explicar. Ou é ou não é. Ou se sente ou não se sente...
- Mas eu to cansada disso... Não aguento mais ser de pedra.
- Um dia alguém vai vir e quebrar todo esse gelo a sua volta . Mas não é quando você quiser... De repente, um dia, vai acontecer.
- Mas quando, Carlos? Quando...?
domingo, 17 de novembro de 2013
Última Carta
Querido,
Ver você, depois de tanto tempo, foi algo para o qual eu não estava pronta. Eu fantasiava esse momento na minha cabeça, você passando por mim na rua, mas nunca acreditei que pudesse efetivamente acontecer, entende? Toda vez que saio de casa, imagino que posso te encontrar e como isso seria. E isso de fato aconteceu. Você, de todas as pessoas...
Mas o pior de tudo é saber que você, provavelmente, não se lembra. Você se lembra? Eu sou patética não sou? Ainda me lembro do seu aniversário, todos os anos, e escrevo para você em todos eles. Quem sabe quando eu for uma escritora famosa, você se lembre. Talvez eu nomeie um dos meus personagens com o seu nome. Do jeito que eu te conheço, você não contaria para ninguém. Se bem que... Não te conheço mais. As pessoas mudam muito em um curto período de tempo. Quantos anos fazem?
Porque sinto como se estivesse falando com uma parede? Ah, você não tem noção a dor que me causa, tremer ao te reencontrar, sentir todo o meu corpo fraco e minha cabeça tonta. Como sempre, você consegue destruir meu emocional em 3 segundos. Uma dopada de remédios, é o que você faz de mim.
Nunca falei sobre isso, ou mesmo escrevi, mas nós sabemos onde isso começou. Porque lá no fundo, você se lembra de mim. Sei que sim, aquele garoto que eu conheci não morreu sem deixar traços, marcas. Você foi o começo de tudo, você foi o primeiro peso me puxando para baixo. Acho que mereço, no mínimo, um olhar de reconhecimento, algo que diga, eu sei quem você é, você significou algo. Porque no final é só isso, eu só quero significar algo. É tão difícil assim?
Espero nunca mais te ver, querido. Mas eu sei que enquanto morarmos na mesma cidade, no mesmo país, as circunstâncias vão sempre nos colocar juntos. E, só para constar, essa é a última. Eu não vou escrever no seu próximo aniversário.
Com o pouco amor que sobrou,
Letícia
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Clinica de Seleção Natural
Lia despertou como se acordasse de um coma. Não sabia ao certo onde estava, nem ao certo quem era. Se viu parada em frente a um espelho, dentro de um banheiro, alisando levemente os cabelos úmidos. Aos poucos foi lembrando as circunstâncias, mas elas eram tão absurdas que lhe custou um pouco a acreditar. Ela sabia que estava se arrumando para ir a uma clínica, isso era certo... Mas o que estava em seu cérebro, o tal compromisso marcado para dali uma hora, parecia tão macabro que ela pensou estar havendo algum engano. Como poderia alguém deixa-la fazer aquilo? Talvez o caráter absurdo da situação justificasse seu súbito lapso de memória.
Alguém bateu na porta do banheiro. Uma cabeça loira se projetou pela fresta, repetindo Estamos atrasados. Antes que ela pudesse impedir a figura de um coelho correndo de um lado para o outro surgiu em sua mente. Um coelho loiro de dois metros de altura. Estamos atrasados, estamos atrasados. Sua mãe esperava no fim do corredor, com as chaves do carro na mão.
Lia sabia para onde eles estavam indo, só não conseguia verbalizar, pois era bizarro demais para fazer sentido. Ela sentia como se estivesse em um sonho e tudo andasse em câmera lenta, mas, ao mesmo tempo, rápido demais. Ela, sua mãe e o coelho loiro passaram pela messa da cozinha, no caminho para a saída, e ela viu diversos panfletos em cima da mesa. Clinica de Seleção Natural - Ajudando os Seres Humanos a Eliminarem os Mais Fracos pela Sobrevivência da Espécie Desde Sua Fundação. Então era verdade. Eles realmente a estavam levando para uma clinica para que eles a ajudassem a se suicidar! Lia não sabia se ria ou se chorava. Era simplesmente absurdo.
Antes que ela pudesse perceber eles já haviam chegado na tal clínica. O tempo passava sem que ela percebesse. Hora se arrastando, hora voando. Ao entrar ela se deparou com a cena mais triste que já vira: amontoadas em uma cadeira crianças raquíticas esperavam sua vez de serem eliminadas, do outro lado um adolescente com marcas de agulhas nos braços, mais a frente, entrando para a área de atendimento, um senhor muito idoso acompanhado do que parecia ser seu neto.
- Eu não entendo... Porque vocês não estão me impedindo de fazer isso? - Lia perguntou para o coelho e sua mãe.
- Oh querida... Era isso que você queria! O remédio deve estar começando a fazer efeito... Eles disseram que isso poderia acontecer.
- Remédio?
- É, o remédio que eles mandaram te dar antes de sair de casa. Chama-se Choque de Realidade.
Lia deu um passo para trás e começou a correr em direção a porta. Precisava de ar. Ao chegar do lado de fora, sentiu o sol bater na sua pele e la no fundo algo se remexeu. Pela primeira vez, em muito tempo, ela tinha vontade de viver. E continuou correndo.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
O que é viver?
E quando menos esperava, Clara se pegou olhando uma foto dos dois escondido. Escondido dos amigos, da mãe, de si mesma. No momento em que percebeu que encarava a foto - imaginando coisas e mais coisas - desviou o olhar envergonhada. Estava acostumada à proibição, não sabia o que era se deixar levar. Estava em um terreno completamente desconhecido e isso era novo para ela, estava acostumada a saber onde ir. Agora, a única coisa que sabia era que, ao fechar os olhos, só via uma imagem e uma imagem apenas; isso a assustava. Até então tudo em sua vida tinha sido utópico e naquele momento, encarando aquela foto, ela sentiu pela primeira vez o gosto da realidade. Como pular de Bungee Jumping, ela queria a adrenalina, mas temia que a corda arrebentasse no meio do caminho.
Clara se lembrava claramente de quando o vira pela primeira vez e o quanto ficara incomodada pelo fato de ter demorado tanto até finalmente ouvir sua voz. Recordava de olhares escondidos e de morrer para descobrir seu nome. E, por uma feliz conspiração universal eles se tornaram próximos. E surpreendentemente ele demonstrou interesse em Clara, interesse esse que ela não estava acostumada, não sabia como reconhecer, receber e muito menos responder. Como esperado, por um padrão já visto anteriormente, ela deixou a chance passar, trocou algo real por algo platônico. A verdade é que Clara gostava mais ficção do que da realidade. Ela não sabia lidar com a realidade. E como pessoa pratica que era, preferia fugir daquilo que não conhecia. Clara tinha medo da vida. E reconheceu isso ao olhar para aquela foto e pensar no que perdera, não só com ele, mas com todos os outros antes.
Ela deitou na cama, não sabia como lidar com aquela descoberta. Sabia que tinha medo de muitas coisas: elevador, cobras, escuro... Mas como alguém podia ter medo da vida? Para ela viver era algo instintivo, como comer ou dormir. Mas nem todos comem o que é certo e muitos têm insônia. Ela queria desesperadamente se libertar, mas como? Queria viver. A realidade.
Parou de pensar e pegou o telefone, procurou um número específico na sua agenda de contatos e discou.
- Oi, aqui é a Clara. Eu quero viver, você quer viver comigo? - disse em um folego só.
- ...
- Você quer sair comigo?
- Sim, Clara. Eu adoraria.
Desligou o telefone e caiu na cama, dando gargalhadas. Finalmente aprendera o que é viver.
domingo, 18 de agosto de 2013
Negrume
Seu rosto estava dividido, seus braços estavam divididos, seu coração estava dividido. Ela demorara a chegar até ali. Tinha seu emprego, sua casa, seu salário, sua própria mobília. Aprendera a cozinhar. Mas o dia estava escuro e ela precisava de sol, só alguns raios bastavam. Lúcia sabia que tinha duas opções na sua frente, sabia do que precisava, só não conseguira admitir ainda.
Levantou-se da penteadeira e foi até a janela. O negrume das nuvens deu-lhe arrepios. Tinha pavor da escuridão. Bom, disso pelo menos ela tinha certeza. Ela estava cansada do negrume. Foi até o seu guarda-roupas e escancarou-lhe as portas - estava repleto de roupas pretas. Começou a tira-las com mais velocidade e violência do que era necessário. Mas é porque estava feliz. Descobrira do que não precisava. Não precisava da escuridão, do negrume. Colocou tudo em meia dúzia de sacolas e decidiu levar para doação da Igreja São Francisco. Não é porque não serviam para ela que não podiam servir para outros.
Mas agora sabia que seu armário estava repleto de espaço. Ainda não sabia que queria algo branco, suave, tranquilo, ou algo vermelho, intenso e apaixonante, ou mesmo amarelo, alegre e cheio de vida. Ela podia não saber o que queria, mas sabia do que não precisava.
Terminou de pentear os cabelos e saiu para o trabalho. Bem na hora que os primeiros raios de sol começaram a surgir em meio as nuvens.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Muralha
O vento batia forte, mas ela mal sentia uma brisa. O tempo passou mais rápido do que ela esperava e a fortificação se ergueu antes que ela pudesse impedir. Tijolo a tijolo ela foi se cercando e se cercando, acreditando que estava miraculosamente se salvando. Ah, mal sabia ela! Tão fã de metáforas, em um piscar de olhos ela se viu cercada por uma metáfora viva da qual não sabia se livrar.
Claustroagorafobia, era o que ela sentia. Completamente paradoxal. Uma vontade indescritível de se livrar das amarras que a impediam de realmente experimentar o mundo, mas assustada demais para dar o primeiro passo para fora daquela fortaleza, seu porto seguro.
Mas era porto seguro se limitava, se impedia? Ela queria ser feliz, ela queria ser livre, ela queria um rabo de baleia. Mas ela não sabia como fazer isso. Seu castelo era tão seguro e quentinho, lá fora era tão frio e assustador. "Tudo poderia acontecer!" ela exclamava temerosa, "Mas essa é a magia!" respondiam os seres livres exaltados. Era uma floresta, uma festa, mas ela não queria pegar pneumonia.
No entanto, ela se lembrou que até algum tempo atrás ela não sabia como era do lado de fora. As muralhas eram altas e cercadas de espinhos. Ninguém entrava, ninguém saia. Mas agora haviam janelas, muitas delas, e até uma ou outra porta. Ela ainda não tinha se arriscado a sair, mas outros vinham visitá-la, contar-lhe sobre o lado de fora e, às vezes, chama-la para sair.
Aquilo era uma grande mudança, pensou ela. Mas seu grande medo era sair e não conseguir mais voltar. Se perder lá fora. Se machucar. Machucar os outros. A grande porta de madeira da frente da muralha estava logo ali, e ela tinha a chave nas mãos. Mas ela sabia que não conseguiria passar por ali e deixar seu castelo, que ela tanto amava, para trás.
Então ela tomou uma decisão, começou a abrir janelas por toda a muralha, a cada dia mais e mais janelas. Até que um dia não havia mais muralha, só janelas. Ela finalmente tomou coragem e saiu de seu confortável castelo, com a certeza de que nunca mais voltaria para lá.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
A Garota
A festa estava boa. Não, isso é uma mentira. A festa estava aceitável. Não era nada maravilhoso, mas também não era torturante ou coisa do tipo. Apesar do cheiro de cigarro estar começando a ficar irritante. A bebida rolava desde cedo e as pessoas começavam a mostrar suas verdadeiras faces. Porque é essa a verdade, não é? A bebida não tira a inibição, não tira a vergonha, ela tira as máscaras. Não, isso não é uma apologia ao álcool, tenho a opinião de que as máscaras existem por uma razão, quem somos nós para querer arrancá-las a força?
De qualquer maneira, eu não previ o que aconteceu. Eu não acredito que fui estupida o suficiente para deixar isso passar. Não, eu não sou uma vidente. Mas eu gosto de controle. É, isso é um problema constantemente discutido nas minhas caras sessões de terapia. Mas porque eu estou falando isso? Toda essa história não é sobre mim, afinal, é sobre ela! Quero dizer, é um pouco sobre mim também.
Ela estudava, anos atrás, no lugar em que estudo agora. Todos lá conhecem ela, o que é normal certo? Eu é que invadi o território dela. De qualquer forma, eu estava ajudando uma amiga com os doces quando ela chegou e tenho que confessar que senti um arrepio percorrer todo o meu corpo. Eu nunca tinha visto ela pessoalmente, só por fotos, mas era ela, ali na minha frente! Nunca me pareceu tão real. Sabe quando você vê artistas na TV mas sabe que nunca vai encontrar nenhum deles efetivamente? Era assim que eu a imaginava. Só alguém distante que vinha a ser a melhor amiga de alguém do meu passado.
Bem é isso. Me julgue, diga o que quiser, já ouvi tudo o que você puder imaginar dos meus amigos. Mas naquele momento mil pensamentos passaram na minha mente, memórias de tanto tempo atrás, coisas que eu tinha esquecido há muitos anos. Tudo o que ela representava estava ali, beirando na superfície, mas eu não podia compartilhar com ninguém, nem eu mesma entendia.
A única coisa que me dava alívio era a certeza de que ela não me conhecia. Como ela poderia? Mas então nossos olhares se cruzaram e eu só posso dizer que eles estavam gelados como a morte. Mesmo. Eu tive certeza de que ela sabia quem eu era e conhecia tudo sobre mim. Como? Era tudo o que passava na minha cabeça. Mas só havia uma resposta: ele havia contato. Por um ou dois segundos confesso que fiquei contente, mas depois pensei em todo o resto e fiquei muito constrangida. Eu nem sabia que uma pessoa podia ter tantos sentimentos ao mesmo tempo!
Arrumei uma desculpa e fui para casa. A aparição da garota me provou algo de que eu já suspeitava há muito tempo. Eu não esquecera o passado. Mesmo quando eu me fazia acreditar que tinha seguido em frente, eu ainda estava presa. Meus grilhões ainda estavam fincados lá, a única diferença é que as correntes estavam um pouco mais compridas. Corri para o guarda-roupas e peguei a caixa com todas as cartas, fotos e lembranças daqueles dias. Eu ia dizer "dias mais felizes", mas quem disse que eles eram tão felizes assim no final das contas? Levei a caixa para o quintal, acendi um fósforo e botei fogo no meu passado.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Perder o Controle?
Daí meu coração aperta porque eu sei que você vai ver ela e que ela vai ver você; E que você quer carinho e que ela tá carente. Porque eu te conheço e sem muito bem quem perseguir para conseguir as informações que eu quero. Não me julgue, eu sei que você faz isso também.
Está muito perto do dia dos namorados para ser saudável. Está longe demais das férias para ser bom. Cria expectativas nessas suas cabecinhas adolescentes, do tipo que eu nunca consegui ter. Sempre fui profunda demais para a minha idade, sem ser profunda o suficiente para que pudesse significar algo. Não sou Lispector nem Meireles, sou uma mera Soares. Uma eterno meio termo. Ah! Como dói.
Eu queria saber como ela é de perto, fotos não são suficientes para mim. Mas cidades nos separam e eu enjoo em viagens. Que vergonha. Eu aposto que ela não enjoa em viagens. É isso, não é? Ela não enjoa... Vocês podem ir para outro mundo e ela vai estar sempre ao seu lado. Eu sou uma inconstância. Eu sou demais, sendo muito pouco para você.
O que me atrai é que você me desafia e eu não sou facilmente desafiada. Por isso eu escolhi essa profissão, pessoas são desafiadoras. Mas você... Você ultrapassa qualquer limite. Nossa, quanto paradoxo para uma só pessoa! Mas você sabe do que eu estou falando... E mesmo que não saiba você é simples o suficiente para perguntar. E eu não me importo de explicar. Você não é cheio de si e isso me atrai. Você não tem consciência de quem você é e isso me atrai.
Ou talvez tudo isso seja uma mentira e você saiba muito bem o que você esta fazendo. Oh Deus, é tudo tão confuso! Agora você entende o que se passa pela minha cabeça quando eu fico horas e horas olhando para o nada? São muitas incógnitas e muitas variáveis que eu não consigo calcular. Eu não tenho o controle e isso me apavora. Você me deixa sem ação e eu não estou acostumada com isso. Eu não estou acostumada a me deixar levar, você entende?
A única maneira de resolver esse problema praticamente de caráter matemático é tentar, escolher um caminho e ir, esquecer as chances e simplesmente me jogar. Mas eu demorei tempo demais plantando meus pés no chão para abandonar tudo agora. Abandonar tudo por você... Mas se eu não fiz isso, eu vou ficar nessa eterna indecisão sem saber o que é real ou não.
E agora, arriscar e talvez ganhar tudo ou perder tudo, ou continuar nesse eterno mar de inércia?
Publicado originalmente no blog Escolhendo Seu Livro.
Divagações de uma Teórica da Conspiração
Hoje eu acordei e me prometi que não iria pensar nele. Funcionou muito bem até meio dia. Esse é o meu nível de habilidade. Mas o que eu posso fazer?
Tive noticia de dois ex-namorados. Um virou militar. Palmas para ele, sonho conquistado. O outro está estudando, provavelmente para virar médico. Ou professor. Bateu uma sensação de estar estagnada, sem evoluir.
Pode parecer besteira, mas ele é o exemplo vivo disso. Somos perfeitos um para o outro, pelo menos do meu ponto de vista, mas alguma coisa continua nos mantendo separados. Alguma coisa está sempre me mantendo no mesmo lugar... Sem ter para onde fugir. Conspirações universais. Talvez eu tenha mesmo mania de perseguição, no final das contas.
Ele me ligou no final da tarde, a última pessoa com quem eu gostaria de falar. Mas o assunto entre nós parece fluir tão bem... Até que começamos a tocar em assuntos delicados demais para serem tocados. Ele fez o que não era esperado, usou a paravra "amor" para se referir a outra garota. Foi conjulgado no passado, mas ainda assim. Então, me senti compelida a falar sobre o futuro médico/professor. Eu não sentia que devia nada a ele, mas eu precisava mostrar que eu também tenho um passado, que eu também sou humana!
Mas, surpresa! Silêncio. Sabe, isso é tudo confuso demais para mim. Eu não estou acostumada. É cansativo e, honestamente, ainda não descobri se vale a pena. Minha terapeuta - por que, sim, com a minha cabeça você também precisaria de ajuda - diz que eu só posso saber se vai dar certo se eu der uma chance. Mas de onde eu vim, não existe esse tipo de coisa. Pessoas como eu, simplesmente não correm riscos.
Me levanto e vou para a frente do espelho, pensando no novo militar e em como as coisas tinham acabado entre nós. Acho que talvez essa seja a grande resposta para o mistério: pessoas nascem destinadas para serem e fazerem determinadas coisas. Talvez eu tenha nascido para ser a melhor amiga. Não que eu tenha sido boa nesse posto. Nem um pouco. Talvez eu simplesmente não seja uma "garota de relacionamentos", se tal coisas existir. Que minha terapeuta não me ouça e que ele não me leia. Mas só tem um jeito de eu saber: tentando. Adivinhem? Prefiro a obscuridade da minha vidinha mediocre. Pelo menos por enquanto.
Publicado originalmente no blog Escolhendo Seu Livro.
Tive noticia de dois ex-namorados. Um virou militar. Palmas para ele, sonho conquistado. O outro está estudando, provavelmente para virar médico. Ou professor. Bateu uma sensação de estar estagnada, sem evoluir.
Pode parecer besteira, mas ele é o exemplo vivo disso. Somos perfeitos um para o outro, pelo menos do meu ponto de vista, mas alguma coisa continua nos mantendo separados. Alguma coisa está sempre me mantendo no mesmo lugar... Sem ter para onde fugir. Conspirações universais. Talvez eu tenha mesmo mania de perseguição, no final das contas.
Ele me ligou no final da tarde, a última pessoa com quem eu gostaria de falar. Mas o assunto entre nós parece fluir tão bem... Até que começamos a tocar em assuntos delicados demais para serem tocados. Ele fez o que não era esperado, usou a paravra "amor" para se referir a outra garota. Foi conjulgado no passado, mas ainda assim. Então, me senti compelida a falar sobre o futuro médico/professor. Eu não sentia que devia nada a ele, mas eu precisava mostrar que eu também tenho um passado, que eu também sou humana!
Mas, surpresa! Silêncio. Sabe, isso é tudo confuso demais para mim. Eu não estou acostumada. É cansativo e, honestamente, ainda não descobri se vale a pena. Minha terapeuta - por que, sim, com a minha cabeça você também precisaria de ajuda - diz que eu só posso saber se vai dar certo se eu der uma chance. Mas de onde eu vim, não existe esse tipo de coisa. Pessoas como eu, simplesmente não correm riscos.
Me levanto e vou para a frente do espelho, pensando no novo militar e em como as coisas tinham acabado entre nós. Acho que talvez essa seja a grande resposta para o mistério: pessoas nascem destinadas para serem e fazerem determinadas coisas. Talvez eu tenha nascido para ser a melhor amiga. Não que eu tenha sido boa nesse posto. Nem um pouco. Talvez eu simplesmente não seja uma "garota de relacionamentos", se tal coisas existir. Que minha terapeuta não me ouça e que ele não me leia. Mas só tem um jeito de eu saber: tentando. Adivinhem? Prefiro a obscuridade da minha vidinha mediocre. Pelo menos por enquanto.
Publicado originalmente no blog Escolhendo Seu Livro.
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