terça-feira, 26 de agosto de 2014

Beyoncé e o feminismo além da discussão


Dentre os usuais burburinhos e escândalos causados pelas premiações musicais todos os anos, o VMA 2014 trouxe uma polêmica a mais: Beyoncé levantando a bandeira do feminismo. E é claro, o debate que daí surgiu e dividiu opiniões.
Primeiro vamos ver o que o dicionário define como feminismo: "Movimento iniciado na Europa com o intuito de conquistar a equiparação dos direitos políticos e sociais de ambos os sexos", ou seja, é a mobilização das mulheres na luta em prol da igualidade entre os sexos, englobando direitos como educação, emprego, segurança... Porque é de censo comum que mulheres e homens no mesmo cargo tem diferenças salariais, e é tudo uma questão histórico-cultural.
Bom, agora que nós já entendemos o básico do feminismo vamos passar para as reações à Beyoncé. Ela virou feminista do dia para noite!  Acho que qualquer pessoa que já ouviu (ou viu a letra) uma vez na vida de If I were a boy percebe nitidamente a questão de que, se ela fosse um garoto, ela poderia "beber cerveja com os rapazes, correr atrás de garotas e ninguém se importaria porque eles ficariam ao seu lado" (Drink beer with the guys and chase after girls, I'd kick it with who I wanted and I'd never get confronted for it, cause they'd stick up for me). Eles ficariam ao lado do rapaz, diferente das mulheres, que são ensinadas a rivalizar umas com as outras, claro que com exceções.
Eu não posso levar a sério alguém que fala sobre feminismo seminua em cima de um palco. Mas é exatamente isso que faz dela a melhor pessoa para falar. Porque ser acadêmica, sentada em um escritório e defender o direito da mulher sobre o próprio corpo é muito fácil. Agora usar o corpo e a imagem como forma de trabalho, ser julgada por isso, ser o modelo de milhões de meninas e mulheres, é o que faz dela tão competente quanto qualquer acadêmica para falar do assunto. É o mesmo caso, no Brasil, da Anitta e da Valesca. As acadêmicas feministas passam a vida defendendo direito à sexualidade feminina e criticando a forma como a mídia objetifica a mulher para o prazer do homem, mas quando a Valesca canta "my pussy é o poder" ou a Anitta glorifica a mulher com "Show das poderosas", essas mesmas acadêmicas às desqualificam e desmerecem, como se "feminista" fosse um título que só algumas mulheres merecessem. Segregar dentro da minoria? Essa definitivamente não é a saída e por isso existem tantas separações e divergências dentro do feminismo, que acabam atrasando os ganhos da causa.
Ela alisa cabelo, faz dietas para ficar magra, cadê a feminista? Eu uso maquiagem, passo mil produtos no cabelo e na pele, isso quer dizer que eu não sou feminista? O corpo é dela e desde que ela faça tudo isso de maneira saudável, qual o problema? Uma das músicas do último álbum dela fala bastante disso, Pretty Hurts (assistam o vídeo), como a perfeição é tida como uma obrigação na sociedade ocidental (Blonder hair, flat chest, TV says bigger is better; South Beach, sugar free. Vogue says thinner is better).
Esse último album é um grande manifesto feminista, na minha opinião. Desde Pretty Hurts, até Grown Woman, em que ela basicamente fala que é "grande" e pode fazer o que bem quiser. ***Flawless, independente de qual versão, vem com uma apresentação do que é feminismo (I wake up looking this good and I wouldn't change it if I could). Partition e Blow são só sobre a sexualidade feminina, a primeira é inteira sobre a fantasia de uma mulher e a segunda, sobre a sua satisfação. Em Drunk in love, Beyoncé e Jay Z alertam para os relacionamentos abusivos, acho que pode não ficar muito claro, mas é indiscutível ao ver a parte em que Jay Z canta: Baby no, I don't play, now eat the cake, Annie Mae, said, "Eat the cake, Annie Mae!", em referência a Ike Turner e Tina Tuner (Anna Mae Bullock).
Em conclusão, o feminismo de Beyoncé está além de qualquer discussão. Ao invés de criar picuinhas inúteis, devemos focar no fato de quantas mulheres, e até homens, não poderão conhecer mais sobre o feminismo através dela e de outras como ela. Segregar e diminuir o outro nunca é a resposta para um movimento que busca a igualdade!

2 comentários:

  1. Gostei demais do texto Letícia, você escreve muito bem. Vejo profundamente em todo canto da sociedade o que você representou no questionamento: "Segregar dentro da minoria?". Isso acontece sempre e em todos os grupos, vejo essa segregação na comunidade LGBT, por exemplo, onde há uma grande discriminação da própria comunidade com aqueles que fogem do esteriótipo comportamental masculino, e essa discriminação, infelizmente, é bem automática. Sempre tem um querendo firmar o próprio ego por cima do outro.

    Acredito também que, independente de qualquer argumento da artista em ser (ou não) feminista, o simples fato dela abordar o tema em uma premiação mundial (e normalmente polêmica) como o VMA já trás uma visibilidade gigantesca pro movimento feminista, e aí, quanto maior visibilidade, maior a escala de crescimento.

    Um beijo! :)

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    1. Essa segregação é realmente um problema. Acompanho algumas comunidades americanas e eles relatam exatamente isso, tanto entre os gays, quanto entre as lésbicas.
      Concordo em número, gênero e grau! A visibilidade é importantíssima, principalmente para atingir adolescentes e jovens adultas.
      Beijos, Obrigada pelo comentário!

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