segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Sobre o significado de uma flor

Se me dissessem, alguns anos atrás, que eu estaria onde estou hoje, provavelmente não acreditaria. Pensaria que tentavam me enganar, só para me tirar do poço em que tinha me atirado. Porque mudança era uma palavra que não existia no meu dicionário. Só havia um mundo preto e branco, no qual todos eram irreversivelmente ruins.
Mas numa manhã de sol quente, me cansei de ser a vítima de um senhor maior que não me dava resposta. Derrubei a muralha que me separava do mundo e comecei a viver. Não foi fácil, a luz me ofuscava e a todo momento eu queria voltar para debaixo das minhas cobertas, onde tudo era tão mais simples.
O pior eram as pessoas. Depois de tanto tempo num mundo só meu, havia pessoas de novo. Como colonizadores de um planeta há muito tempo abandonado. A todo momento construía novas barreiras, instintivamente. Mas dessa vez os muros tinham janelas e eu só tinha uma saída.
Com o tempo foi ficando menos complicado, aprendi a manter as expectativas baixas, pois pessoas são seres absolutamente imprevisíveis. E a cada dia me abria mais. Cada dia levantava menos obstáculos.
Até que, em certo momento, olhei para o espelho e não reconheci a imagem refletida. Meu rosto estava magro, meus olhos profundos e meus ângulos mais acentuados. Me dei conta que o tempo passara sem que eu percebesse. Demorei algumas semanas para me acostumar com aquela imagem e o que vinha com ela. Era um sentimento de pertencimento tão grande que me sufocava. Pela primeira vez eu estava feliz na minha pele. Estava feliz por ser eu mesma. Descobri que não me importava mais com o julgamento dos outros. Tudo que importava estava ali, refletido naquela imagem.
Claro que não foi tão simples assim, afinal, ninguém vive sozinho. As barreiras continuavam a surgir, mas com uma intensidade cada vez menor. Até que finalmente deixei a maior delas cair. Depois de anos, fui inundada com sensações que achava que já não existiam mais. As pessoas notaram a diferença. E as coisas começaram, lentamente, a melhorar.
Foi como uma flor, que depois de um longo processo de espera, se abre para o mundo. Ainda incompleta, mas viva. Viva pela primeira vez em muito tempo.

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