quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobre professores que mudam vidas

Quando pensei pela primeira vez em fazer faculdade de Psicologia, tinha na minha cabeça mil estereótipos sobre a profissão. Achava lindo abrir a boca para dizer "Eu nunca vou ser clínica", sendo que não tinha ideia do que um clínico fazia. A contradição é que eu sempre odiei qualquer tipo de preconceito e hipocrisia. É, irônico certo? De qualquer forma, sempre fui do tipo que luta pelos excluídos e isso não foi fácil durante o colégio. Outra contradição, porque, quando prestei vestibular, pensava em seguir algo na área de neuropsicologia, de preferência pesquisa. Algo que envolvesse de fato o contato com o ser humano? Deus que me livre! 
Às vezes minhas amigas implicam comigo por eu usar a frase "Quando eu entrei na faculdade, eu queria estudar... agora eu mudei de ideia", por eu ainda estar no 2º período. Mas a verdade é que o entrar na faculdade mudou muito a minha perspectiva do mundo. Talvez por eu encontrar pessoas tão parecidas comigo e que me ensinaram tanto em tão pouco tempo, talvez por ver que na verdade a faculdade é só uma réplica do ensino médio, com a diferença que se você não quiser nada com a vida, o professor vai fingir que você não existe. Mas não foi até alguns dias atrás que me dei conta do momento específico de virada. Aquele momento em que eu entendi o que queria para a minha vida. Que na verdade, até então eu passara todos aqueles anos tentando me adequar a um sistema que simplesmente não serve para mim. Mas eu não estava sozinha.
Na primeira semana de aula, o Centro Acadêmico (do qual agora eu faço parte), organizou duas palestras para a recepção dos calouros. Uma era sobre a profissão e a outra tinha o seguinte título "O combate as opressões às mulheres e às/aos LGBTs". Até então meu conhecimento sobre o assunto vinha de uma amiga lésbica e um amigo gay e uma simples curiosidade sobre o assunto. Fui sem pretensão nenhuma. Creio que vou lembrar desse dia para o resto da minha vida.
Em cerca de 2h, explicaram tantas coisas e desmistificaram tantas outras que saí de lá, honestamente, sem palavras. A professora que liderava a discussão além de extremamente competente e inteligente, não tem medo de enfrentar o sistema e dizer aquilo que pensa. Ela contou sobre diversas sujeiras que ocorrem dentro do departamento e, como "caloura ingenua", fiquei extremamente chocada. Saí da faculdade aquele dia e não conseguia tirar aquilo da minha cabeça.
Algumas semanas depois aconteceu um incidente dentro de sala de aula com uma professora, no qual ela falou de maneira tão preconceituosa que, honestamente, me fez repensar a escolha da minha profissão. Principalmente porque boa parte da sala a apoiou. Essa é a questão, professores conseguem influenciar os alunos muito facilmente, e alguns aceitam o primeiro discurso que houvem como a verdade absoluta e universal, bloqueando qualquer outra ideia.
Mas como eu disse, encontrei um grupo com as mesmas ideias que eu e aprendi mais nesses 6 meses que durante toda a minha vida. Li coisas por fora, busquei, critiquei. Hoje tenho verdades, e valores que não tinha há 6 meses. Tudo por que, uma pessoa, em 2h, me fez abrir os olhos para um mundo completamente diferente, onde a verdade que eu e você acreditamos, muitas vezes foi imposta por uma sociedade a qual convêm que pensemos acriticamente. Ainda sou cheia de preconceitos, mas quem não é? Mas acho que os meus foram realocados para coisas com as quais são válidas ter um pé atrás. Aprendi que é tudo bem não gostar de X ou Y, mas se for para criticar, deve-se entender aquilo e ter argumentos válidos. Mas além de tudo, aprendi que está tudo bem em lutar pelos excluídos e que, muitas vezes, eu sou uma dessas excluídas. E é por isso que hoje creio que meu foco, durante a graduação e além, são questões de gênero, sexualidade e feminismo. E, para surpresa geral (e sim, as pessoas demonstram uma resistência incrível em aceitar isso) a clínica.
E tudo isso por causa de uma professora que tirou 2h do seu dia para falar sobre o trabalho dela para "calouros". Espero reencontrar com ela em um futuro próximo. E espero que outras pessoas como ela existam por ai, para ensinar as pessoas a criticar verdades absolutas e a ver o mundo sob uma ótica diferente.

*não falei o nome das professoras citadas por questão de privacidade

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