quarta-feira, 11 de junho de 2014

Crônica de um pretérito do futuro

E então, depois de tanto tempo, te vi de novo. Mesmo antes de você entrar no meu campo visual eu já sabia que ia te encontrar. Passei o dia te procurando pelas sombras, vendo seu rosto no rosto dos outros. É sempre assim. Eu sempre sinto quando vou te ver. Seu rosto e sua lembrança ficam o dia inteiro passando por minha cabeça, um pensamento que é impossível de reprimir. Até o momento que eu te vejo lá, no meu do meu caminho, como a pedra no poema de Drummond.
Confesso que não senti o que esperava, meu coração não saltou, minha boca não ficou seca, não fiquei nervosa. Acho que seu efeito sobre mim tem prazo de validade e este está finalmente chegando ao fim. Claro que não acabou, afinal, estou aqui escrevendo pra você, mesmo tendo prometido das outras vinte vezes que estas seriam as últimas. Mas é difícil... É um hábito e eu não consigo parar. Sabia que você é o único para quem eu escrevo em segunda pessoa? Com quem eu converso? Acho que sinto falta daquela proximidade, familiaridade... O que não faz sentido algum. Já faz tanto tempo! Eu não devia nem lembrar da sua existência. Mas eu lembro.
Você tirou de mim algo que até hoje não consegui recuperar. Uma confiança eterna no próximo, um amor gratuito que você tomou todo pra si e sem deixar nada para trás. Acho que minha falta de paciência com tudo e todos vem do fato de eu ainda ter tanta paciência com você. De eu ainda me preocupar, me importar.
Será que algum dia eu vou esquecer? É claro que eu vou esquecer muitas pessoas e muita coisa conforme o tempo for passando, mas achei que eu já teria te esquecido a essa altura. Sei que esqueci muita gente daquela época. Isso me fez reformular minhas teorias e começar a acreditar que sempre vou levar um pedacinho de ti, mesmo que enterrado lá no fundo. Porque sim, já desisti de contar os anos.
Às vezes tenho curiosidade de saber se você se lembra. E se lembrar-se, o quanto se importa. Mas não faz muita diferença. Eu já percebi como funcionamos. Se um dia tiver de ser nós vamos nos encontrar de novo. Seja aqui, seja em outra cidade... Seja onde for. Se for para ser, nós vamos nos encontrar e das duas uma: ou botaremos um ponto final uma história que numa devia ter começado ou reescreveremos uma que simplesmente aconteceu no momento errado.

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