Comecei a semana, mais precisamente o final de semana, assistindo o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Eu tenho toda uma "luta" com esse filme, mas isso fica para outro dia, o que interessa é que ele mexeu profundamente comigo. Amélie é uma garota/mulher profundamente sozinha, muito por causa de sua criação, explicada logo no inicio do filme. Ela não sabe bem como se relacionar com outras pessoas e, por isso, vê na vida pequenos prazeres que passam despercebidos pela maior parte das pessoas.
No decorrer do filme, Amélie faz amizade com um vizinho, um senhor que tem uma doença que deixa seus ossos frágeis como vidro, fazendo com que ele evite sair de casa. Para passar o tempo, ele faz réplicas de quadros de Renoir, uma por ano, e estava com dificuldades para captar o rosto de uma das mulheres, a garota do copo de água. Ela passa a ser a metáfora pela qual Amélie conversa sobre seus sentimentos.
Uma conversa me foi especialmente importante. Amélie diz que a garota pode estar distante, por estar pensando em alguém que não está ali no quadro. O senhor responde: Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente a criar laços com os que estão presentes. Amélie rebate: Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros. Mas o senhor termina sem deixar espaço para respostas: E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr em ordem?. Eu faço faculdade de Psicologia e naquele momento tudo o que eu consegui pensar era Enquanto eu arrumo a bagunça dos outros, quem vai arrumar a minha?
Outra cena que atingiu tremendamente, essa fez com que eu me acabasse em lágrimas. Amélie tinha a felicidade ali, a um palmo de distância, tudo o que ela precisava fazer era aceitar, mas isso era difícil demais para ela. Então aquele seu vizinho grava para ela um vídeo, dizendo coisas que ela precisava ouvir e que, talvez em uma conversa, ela não fosse querer escutar.
Então, minha querida Amélie... Você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, então, com o tempo, seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então, vá em frente, pelo amor de Deus.
Em resumo é uma história sobre tomar o controle, fazer algo, deixar a posição de espectador e tomar uma atitude frente a vida. Tudo o que eu mais precisava ouvir e tudo o que eu menos sei como fazer. Até aí parece simples e completamente plausível. Ninguém deve ser passivo na própria vida.Freud diz em um de seus textos (O mal-estar na civilização) que há duas maneiras do ser humano suprir o princípio do prazer pelo qual ele é guiado: buscar viver intensamente ou evitar o sofrimento. A verdadeira felicidade viria da primeira. Mas quando alguém passa muito tempo evitando o desprazer é extramente difícil essa busca por prazeres intensos. Porque quando se vive ao extremo, a chance de sofrimento também é muito maior. Fazer essa mudança é algo muito complexo e não há fórmulas ou receitas a se seguir. É dar a cara a tapa diariamente, se arriscando a, às vezes, apanhar.
Quem vive somente evitando o sofrimento na realidade não vive, sobrevive. É uma pseudovida na qual os prazeres tem de vir de subterfugiosos que transformem a realidade em um segundo plano. Sejam esses subterfúgios o isolamento, o mergulho no mundo das artes, ou qualquer outro, uma hora eles não são mais suficientes e a vontade de viver se sobrepõe.
Mas como sair da zona de conforto e se colocar num mundo tão instável e inconstante? Como arriscar o não saber? A maior dificuldade é o medo. As pessoas que estão nessa situação têm medo. Medo de não saber, medo de perder o controle, medo do sofrimento. Mas sem sofrimento, quem somos nós? Sem as lembranças? E como podemos ter tudo isso só sobrevivendo? A resposta é que não podemos.
O segredo é aprender a dar o primeiro passo. Porque eu tenho certeza de que uma vez fora dessa zona, nunca mais vamos querer voltar.

Este é um filme que eu não canso de assistir.
ResponderExcluirLindamente conotativo!!!
Abraços