domingo, 11 de maio de 2014

O outro lado da cama

Acordei sentindo as lágrimas descendo nas minhas bochechas. Todo o sonho agora era tão real tão vivo. Será que fizera certo ao trancafiar minhas pilulas na gaveta? Estiquei os braços, mas não havia ninguém ali. O outro lado da cama estava arrumado e gelado, como sempre estivera. Fechei meus olhos. Se me concentrasse o suficiente conseguia sentir o calor nos meus braços.
Os braços dele nos meus, me abraçando por trás, sussurrando palavras doces, às vezes incompreensíveis, mas tão incrivelmente doces. Seus óculos esbarrando e se emaranhando nos meus cabelos, até que eu finalmente desisti e os arranquei jogando em cima do criado. Eu sabia que ele não podia me ver direito, então tinha que me manter perto, bem perto, de forma que ele não perdesse um detalhe.
Virei bruscamente para que ele pudesse ver meu rosto, meus olhos. Passei a mão por sua barba, seus cílios, suas sobrancelhas, lentamente, absorvendo cada detalhe, porque dentro de mim eu sabia que aquilo não ia durar. De alguma forma, eu sempre sei. Eu sempre sei de tudo. É uma benção, mas também uma maldição.
Suas mãos seguravam firmemente a base de minhas costas, deixando minhas mãos livres para percorrerem seus ombros, seus braços, suas costas, desde o pescoço até a lombar.
Escalei até seu ouvido direito e disse tudo, tudo o que sempre ficou entalado aqui dentro e nunca saiu. Contei como me senti mais leve no momento em que nos conhecemos, como parecia certo nós dois juntos, lembrei sobre nossas cartas e nossas músicas e nossas risadas e nossos segredos, agradeci por tudo o que aprendi e pela pessoa que me tornei. Beijei cada parte do seu rosto. Deixei minha alma se despedir e aproveitar cada último instante. Quando dei o último beijo, nos seus lábios, e me afastei para ver seu rosto, seus traços já não estavam mais nítidos. Pouco a pouco ele desaparecia... Seus braços já não estavam mais ao meu redor, eu não podia mais ouvi-lo. As lágrimas vieram, eu chamei, mas ninguém respondeu.
Fechei os olhos por um momento, quando os abri, estava de volta ao mesmo quarto cinza de sempre. Tudo não tinha passado de um sonho. A cama estava mesmo vazia. Podia fantasiar o quanto quisesse, ela continuaria assim, gelada, porque mesmo sendo muito bem resolvida na minha solidão, eu me recuso a dormir no meio da minha cama. Porque seria negar espaço para a ocupação do outro lado. Seria como fechar a única forma de abertura que reconheço. E mesmo que até lá ele permaneça gelado e eu continue a fantasiar... Eu me nego a dormir no meio da cama.

Um comentário:

  1. Por mais real que sejam as sensações, sonhos não passam disso...de sonhos. Que bom a personagem, apesar de se sentir "resolvida na solidão", não nega espaço na cama e na vida para que outra pessoa possa ocupar o lado vazio, frio...para que o lugar frio possa se aquecer novamente.

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