Seu rosto estava dividido, seus braços estavam divididos, seu coração estava dividido. Ela demorara a chegar até ali. Tinha seu emprego, sua casa, seu salário, sua própria mobília. Aprendera a cozinhar. Mas o dia estava escuro e ela precisava de sol, só alguns raios bastavam. Lúcia sabia que tinha duas opções na sua frente, sabia do que precisava, só não conseguira admitir ainda.
Levantou-se da penteadeira e foi até a janela. O negrume das nuvens deu-lhe arrepios. Tinha pavor da escuridão. Bom, disso pelo menos ela tinha certeza. Ela estava cansada do negrume. Foi até o seu guarda-roupas e escancarou-lhe as portas - estava repleto de roupas pretas. Começou a tira-las com mais velocidade e violência do que era necessário. Mas é porque estava feliz. Descobrira do que não precisava. Não precisava da escuridão, do negrume. Colocou tudo em meia dúzia de sacolas e decidiu levar para doação da Igreja São Francisco. Não é porque não serviam para ela que não podiam servir para outros.
Mas agora sabia que seu armário estava repleto de espaço. Ainda não sabia que queria algo branco, suave, tranquilo, ou algo vermelho, intenso e apaixonante, ou mesmo amarelo, alegre e cheio de vida. Ela podia não saber o que queria, mas sabia do que não precisava.
Terminou de pentear os cabelos e saiu para o trabalho. Bem na hora que os primeiros raios de sol começaram a surgir em meio as nuvens.
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