Sentada na frente do computador, às 4 da manhã, discuto comigo mesma a eficiência do que estou fazendo. Sei que é um esforço inútil, provavelmente nunca vou achar o que procuro. É demais esperar reconhecer uma música depois de tantos anos. E mesmo que por algum milagre eu consiga encontrar a maldita, que bem vai trazer? Nem eu, nem ele sentimos as mesmas coisas daquela época. De que adianta mexer numa ferida tão antiga?
Mas não se passa um mês sem que eu pense nela pelo menos uma vez. Às vezes por instantes, às vezes por dias e dias seguidos. Honestamente, a maior parte do tempo não entendo essa obsessão. Creio que seja o que a música representou. Ali, naquele momento, foi o que ele utilizou para falar o que sentia. O fato de eu não conseguir lembrar, deixa uma última parte a ser descoberta dessa trama que acabou há tantos anos.
Acho que o problema maior não é estar presa a música, e sim a história. Mas isso é fácil de explicar. Aquela foi a única vez que alguém me amou pura e verdadeiramente. Por mais que absolutamente tudo tenha dado errado, foi o único momento em que eu me senti querida e é muito difícil abrir mão disso. Ainda mais nessa cidade, onde todos se encontram a cada esquina. O sentimento diminuiu desde então, a ponto de ser quase inexiste. Já posso encontrá-lo na rua sem ter um ataque de pânico. Mas sei que nunca vou conseguir esquecer. Claro que aprendi na faculdade, e na terapia, o poder das palavras, que quanto mais repetir "nunca vou conseguir", nunca conseguirei mesmo. Mas é um fato, já desisti de lutar contra ele há muito tempo. Essa foi uma característica que adquiri com a maturidade: parei de lutar causas inúteis.
Eu também parei de falar dele. Meus amigos de hoje não fazem ideia de sua existência. É como se eu quisesse manter essa figura romanceada dele só para mim, para usar nos meus livros e como fonte de inspiração. Já o desfigurei tanto na minha mente, que esse "ele imaginário" é provavelmente só uma sombra do real.
Não desisti de procurar a música. Quando comecei, algumas horas antes, pela letra "A" da tal banda, senti um certo desconforto e só então desconfiei porque... Talvez eu deve-se ter começado pela letra "W". Definitivamente pela letra "W". Ao olhar os títulos das músicas, de repente aparece What Went Wrong? e algo dentro de mim borbulha. É a música. De alguma forma eu sei que é a música. Depois de todos aqueles anos passando pela mesma página, finalmente enxerguei. É a música! Abro a letra e a certeza é confirmada. I can't forgive, can't forget, can't give in. What went wrong? 'Cause you said this was right. You fucked up my life. - eu nunca disse que era uma música de amor. Consigo lembrar nitidamente quando li a letra na época e me perguntei se era para mim. Ah, doce inocência!
Ainda outro dia me peguei pensando sobre como seria reencontrá-lo, se não agora, daqui há alguns anos. Para saber notícias, agradecer por tudo. Porque todo o fervor, o rancor e mesmo o amor desapareceram há bastante tempo. Sei que for para ser, vai acontecer, se não... Mas pode ter certeza que vou levá-lo comigo para sempre, mesmo que seja somente como um dos personagens dos meus livros.
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