Eu não acordo maquiada. Não fico bem de cabelo curtinho e franjinha no meio da testa. Não vou ao cinema ver a reação das pessoas e muito menos fico imaginando quantas pessoas estão tendo orgasmos no momento. Eu não sou Amélie. E a vida não é um filme francês.
Eu queria que fosse. Realmente queria que meu príncipe viesse me buscar na sua lambreta para voarmos em direção ao horizonte, com sorrisos no rosto. Mas enquanto o filme é amarelo e brilhante, a vida real é em tons de sépia e olhe lá.
Sei quem sou e não posso mudar. Toda vez que tento, que abro a mínima brecha, vejo que as coisas são exatamente como eu pensava. Não importa o que o resto do mundo me diga. Creio que vivo em uma realidade paralela. Vejo e participo de tudo por aqui, mas as regras não se aplicam a mim. Ou talvez eu seja de uma subespécie muito específica da raça humana, daqueles que foram feitos para ser brilhantes e miseráveis. Lindos brilhantes miseráveis. Ou talvez a dor seja proposital. Para que eu escreva e chore e estude. Porque vejo nitidamente quem vou ser aos 80 anos. 20 livros publicados, morrendo sozinha em um asilo. Eu sei. Por mais que eu tente fazer diferente, eu simplesmente sei. Sou da espécie dos pensadores, aos quais não se dá o direito de nada mais. É isso que sinto. Tenho um dom maravilhoso, sei que serei uma profissional brilhante, mas um ser humano deplorável.
Posso contar as tentativas em minha cabeça. Cada murro na parede. Se escrever uma biografia, um dia, vou contar tudo, apontar cada dedo e dizer: "Parabéns, você me fez chegar até aqui". Mas não quero acabar como Sylvia Plath, ou Virginia Woolf... Ah, não. Se meu destino é esse, que assim seja. Vou viver o máximo possível e fazer o máximo possível. Tentar entender a logica desse mundo, assim como todos os filósofos da história tentaram. Tentar entender o ser humano. HA! Foi para isso que me escolheram? Quão patético. Eu, logo eu, tentando ajudar alguém a se entender.
Só consigo rir. É tudo tão pateticamente ridículo... É ridículo como a vida anda em círculos e se repete. É tão triste que chega a ser cômico. Já cansei de chorar e me compadecer e me vitimizar. É ridículo. Me pergunto se todos percebem quanto a vida é ridícula. Tão ridícula quanto sair daqui, da minha cidadezinha enfurnada no interior de Minas, para encontrar meu vizinho de porta na França. E acontece. Eu juro.
Parece que só eu percebo o quanto a vida é ridícula. Você nasce, é ensinado como viver e depois morre. E quando tudo a sua volta vai contra esse ensinamento? Sou mulher e não sei (nem nunca vou saber) cozinhar. Não vou me casar. Vou ser a tia dos gatos. Qual o problema? Porque isso deveria ser um problema? E se o ser humano é tão individualista, ótimo! Cada um que funde sua república, no seu pequeno apartamento, e vá ser feliz sozinho. Se o ser humano é tão individualista, porque precisa tanto assim de uma sociedade na qual existir? Acho que é isso. Sou a minha própria sociedade e não preciso de outra para existir! Esse é meu super poder! Não existo em sociedade. Pessoas são chatas, imprevisíveis e cansativas. Todos deveriam usar uma placa na testa dizendo o que pensam. Aí eu poderia viver bem.
Mas não é assim. Eu não sou a Amélie Poulain. Nem Sylvia Plath. Nem Virginia Woolf. Sou alguém que não sabe o que é, nem sua função nesse mundo maluco. E tá de saco cheio de tentar descobrir. De saco cheio de tentar. Vou fazer o que é fácil e ficar na minha zona de conforto. Porque sou da espécie de pessoas programadas para isso. Fim. E foda-se quem disser que estou errada. Tenho o direito de ser amarga e essa é minha escolha. Brilhante e amarga. Se a vida não é doce, porque diabos eu deveria ser?
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