segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Clinica de Seleção Natural


Lia despertou como se acordasse de um coma. Não sabia ao certo onde estava, nem ao certo quem era. Se viu parada em frente a um espelho, dentro de um banheiro, alisando levemente os cabelos úmidos. Aos poucos foi lembrando as circunstâncias, mas elas eram tão absurdas que lhe custou um pouco a acreditar. Ela sabia que estava se arrumando para ir a uma clínica, isso era certo... Mas o que estava em seu cérebro, o tal compromisso marcado para dali uma hora, parecia tão macabro que ela pensou estar havendo algum engano. Como poderia alguém deixa-la fazer aquilo? Talvez o caráter absurdo da situação justificasse seu súbito lapso de memória.
Alguém bateu na porta do banheiro. Uma cabeça loira se projetou pela fresta, repetindo Estamos atrasados. Antes que ela pudesse impedir a figura de um coelho correndo de um lado para o outro surgiu em sua mente. Um coelho loiro de dois metros de altura. Estamos atrasados, estamos atrasados. Sua mãe esperava no fim do corredor, com as chaves do carro na mão.
Lia sabia para onde eles estavam indo, só não conseguia verbalizar, pois era bizarro demais para fazer sentido. Ela sentia como se estivesse em um sonho e tudo andasse em câmera lenta, mas, ao mesmo tempo, rápido demais. Ela, sua mãe e o coelho loiro passaram pela messa da cozinha, no caminho para a saída, e ela viu diversos panfletos em cima da mesa. Clinica de Seleção Natural - Ajudando os Seres Humanos a Eliminarem os Mais Fracos pela Sobrevivência da Espécie Desde Sua Fundação. Então era verdade. Eles realmente a estavam levando para uma clinica para que eles a ajudassem a se suicidar! Lia não sabia se ria ou se chorava. Era simplesmente absurdo.
Antes que ela pudesse perceber eles já haviam chegado na tal clínica. O tempo passava sem que ela percebesse. Hora se arrastando, hora voando. Ao entrar ela se deparou com a cena mais triste que já vira: amontoadas em uma cadeira crianças raquíticas esperavam sua vez de serem eliminadas, do outro lado um adolescente com marcas de agulhas nos braços, mais a frente, entrando para a área de atendimento, um senhor muito idoso acompanhado do que parecia ser seu neto.
- Eu não entendo... Porque vocês não estão me impedindo de  fazer isso? - Lia perguntou para o coelho e sua mãe.
- Oh querida... Era isso que você queria! O remédio deve estar começando a fazer efeito... Eles disseram que isso poderia acontecer.
- Remédio?
- É, o remédio que eles mandaram te dar antes de sair de casa. Chama-se Choque de Realidade.
Lia deu um passo para trás e começou a correr em direção a porta. Precisava de ar. Ao chegar do lado de fora, sentiu o sol bater na sua pele e la no fundo algo se remexeu. Pela primeira vez, em muito tempo, ela tinha vontade de viver. E continuou correndo.

Um comentário:

  1. Um choque de realidade é tudo o que precisamos, muitas vezes, para lembrar como é bom viver!

    ResponderExcluir