segunda-feira, 15 de julho de 2013

A Garota


A festa estava boa. Não, isso é uma mentira. A festa estava aceitável. Não era nada maravilhoso, mas também não era torturante ou coisa do tipo. Apesar do cheiro de cigarro estar começando a ficar irritante. A bebida rolava desde cedo e as pessoas começavam a mostrar suas verdadeiras faces. Porque é essa a verdade, não é? A bebida não tira a inibição, não tira a vergonha, ela tira as máscaras. Não, isso não é uma apologia ao álcool, tenho a opinião de que as máscaras existem por uma razão, quem somos nós para querer arrancá-las a força?
De qualquer maneira, eu não previ o que aconteceu. Eu não acredito que fui estupida o suficiente para deixar isso passar. Não, eu não sou uma vidente. Mas eu gosto de controle. É, isso é um problema constantemente discutido nas minhas caras sessões de terapia. Mas porque eu estou falando isso? Toda essa história não é sobre mim, afinal, é sobre ela! Quero dizer, é um pouco sobre mim também.
Ela estudava, anos atrás, no lugar em que estudo agora. Todos lá conhecem ela, o que é normal certo? Eu é que invadi o território dela. De qualquer forma, eu estava ajudando uma amiga com os doces quando ela chegou e tenho que confessar que senti um arrepio percorrer todo o meu corpo. Eu nunca tinha visto ela pessoalmente, só por fotos, mas era ela, ali na minha frente! Nunca me pareceu tão real. Sabe quando você vê artistas na TV mas sabe que nunca vai encontrar nenhum deles efetivamente? Era assim que eu a imaginava. Só alguém distante que vinha a ser a melhor amiga de alguém do meu passado.
Bem é isso. Me julgue, diga o que quiser, já ouvi tudo o que você puder imaginar dos meus amigos. Mas naquele momento mil pensamentos passaram na minha mente, memórias de tanto tempo atrás, coisas que eu tinha esquecido há muitos anos. Tudo o que ela representava estava ali, beirando na superfície, mas eu não podia compartilhar com ninguém, nem eu mesma entendia.
A única coisa que me dava alívio era a certeza de que ela não me conhecia. Como ela poderia? Mas então nossos olhares se cruzaram e eu só posso dizer que eles estavam gelados como a morte. Mesmo. Eu tive certeza de que ela sabia quem eu era e conhecia tudo sobre mim. Como? Era tudo o que passava na minha cabeça. Mas só havia uma resposta: ele havia contato. Por um ou dois segundos confesso que fiquei contente, mas depois pensei em todo o resto e fiquei muito constrangida. Eu nem sabia que uma pessoa podia ter tantos sentimentos ao mesmo tempo!
Arrumei uma desculpa e fui para casa. A aparição da garota me provou algo de que eu já suspeitava há muito tempo. Eu não esquecera o passado. Mesmo quando eu me fazia acreditar que tinha seguido em frente, eu ainda estava presa. Meus grilhões ainda estavam fincados lá, a única diferença é que as correntes estavam um pouco mais compridas. Corri para o guarda-roupas e peguei a caixa com todas as cartas, fotos e lembranças daqueles dias. Eu ia dizer "dias mais felizes", mas quem disse que eles eram tão felizes assim no final das contas? Levei a caixa para o quintal, acendi um fósforo e botei fogo no meu passado.

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