quarta-feira, 25 de setembro de 2013
O que é viver?
E quando menos esperava, Clara se pegou olhando uma foto dos dois escondido. Escondido dos amigos, da mãe, de si mesma. No momento em que percebeu que encarava a foto - imaginando coisas e mais coisas - desviou o olhar envergonhada. Estava acostumada à proibição, não sabia o que era se deixar levar. Estava em um terreno completamente desconhecido e isso era novo para ela, estava acostumada a saber onde ir. Agora, a única coisa que sabia era que, ao fechar os olhos, só via uma imagem e uma imagem apenas; isso a assustava. Até então tudo em sua vida tinha sido utópico e naquele momento, encarando aquela foto, ela sentiu pela primeira vez o gosto da realidade. Como pular de Bungee Jumping, ela queria a adrenalina, mas temia que a corda arrebentasse no meio do caminho.
Clara se lembrava claramente de quando o vira pela primeira vez e o quanto ficara incomodada pelo fato de ter demorado tanto até finalmente ouvir sua voz. Recordava de olhares escondidos e de morrer para descobrir seu nome. E, por uma feliz conspiração universal eles se tornaram próximos. E surpreendentemente ele demonstrou interesse em Clara, interesse esse que ela não estava acostumada, não sabia como reconhecer, receber e muito menos responder. Como esperado, por um padrão já visto anteriormente, ela deixou a chance passar, trocou algo real por algo platônico. A verdade é que Clara gostava mais ficção do que da realidade. Ela não sabia lidar com a realidade. E como pessoa pratica que era, preferia fugir daquilo que não conhecia. Clara tinha medo da vida. E reconheceu isso ao olhar para aquela foto e pensar no que perdera, não só com ele, mas com todos os outros antes.
Ela deitou na cama, não sabia como lidar com aquela descoberta. Sabia que tinha medo de muitas coisas: elevador, cobras, escuro... Mas como alguém podia ter medo da vida? Para ela viver era algo instintivo, como comer ou dormir. Mas nem todos comem o que é certo e muitos têm insônia. Ela queria desesperadamente se libertar, mas como? Queria viver. A realidade.
Parou de pensar e pegou o telefone, procurou um número específico na sua agenda de contatos e discou.
- Oi, aqui é a Clara. Eu quero viver, você quer viver comigo? - disse em um folego só.
- ...
- Você quer sair comigo?
- Sim, Clara. Eu adoraria.
Desligou o telefone e caiu na cama, dando gargalhadas. Finalmente aprendera o que é viver.
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