segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Muralha


O vento batia forte, mas ela mal sentia uma brisa. O tempo passou mais rápido do que ela esperava e a fortificação se ergueu antes que ela pudesse impedir. Tijolo a tijolo ela foi se cercando e se cercando, acreditando que estava miraculosamente se salvando. Ah, mal sabia ela! Tão fã de metáforas, em um piscar de olhos ela se viu cercada por uma metáfora viva da qual não sabia se livrar.
Claustroagorafobia, era o que ela sentia. Completamente paradoxal. Uma vontade indescritível de se livrar das amarras que a impediam de realmente experimentar o mundo, mas assustada demais para dar o primeiro passo para fora daquela fortaleza, seu porto seguro.
Mas era porto seguro se limitava, se impedia? Ela queria ser feliz, ela queria ser livre, ela queria um rabo de baleia. Mas ela não sabia como fazer isso. Seu castelo era tão seguro e quentinho, lá fora era tão frio e assustador. "Tudo poderia acontecer!" ela exclamava temerosa, "Mas essa é a magia!" respondiam os seres livres exaltados. Era uma floresta, uma festa, mas ela não queria pegar pneumonia.
No entanto, ela se lembrou que até algum tempo atrás ela não sabia como era do lado de fora. As muralhas eram altas e cercadas de espinhos. Ninguém entrava, ninguém saia. Mas agora haviam janelas, muitas delas, e até uma ou outra porta. Ela ainda não tinha se arriscado a sair, mas outros vinham visitá-la, contar-lhe sobre o lado de fora e, às vezes, chama-la para sair.
Aquilo era uma grande mudança, pensou ela. Mas seu grande medo era sair e não conseguir mais voltar. Se perder lá fora. Se machucar. Machucar os outros. A grande porta de madeira da frente da muralha estava logo ali, e ela tinha a chave nas mãos. Mas ela sabia que não conseguiria passar por ali e deixar seu castelo, que ela tanto amava, para trás.
Então ela tomou uma decisão, começou a abrir janelas por toda a muralha, a cada dia mais e mais janelas. Até que um dia não havia mais muralha, só janelas. Ela finalmente tomou coragem e saiu de seu confortável castelo, com a certeza de que nunca mais voltaria para lá.

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