Essa é a primeira e, provavelmente a última, vez que eu falo de você em muito tempo. Especialmente escrevendo. A escrita sempre foi uma parte de mim reservada a extravasar as dores, os amores... Mas por alguma razão nunca consegui escrever sobre você. Mal conseguia pensar, para falar a verdade, mas talvez isso se deva ao coquetel de pilulas que eu tomo. Mas elas estão sendo diminuídas e vão ser tiradas em breve. Não que você se importe.
O rancor só começou a diminuir agora e por isso consigo escrever. Mais uma das minhas cartas que nunca vão ser lidas. Mas não tem problema, quem sabe no futuro você esteja andando pela livraria e veja meu nome na estante, talvez fique curiosa e resolva comprar. Talvez no meio dos meus textos esteja este. Ou mesmo algum outro em que eu te cite. Gosto de pensar em possibilidades como essa. Não só para você, mas para outras pessoas também.
Ando pensando muito em tudo, o que aconteceu e etcetera. Passei muito tempo culpando você, te chamando de todos os nomes possíveis e imagináveis. Essa foi a primeira fase e como eu estava brava. Fui largada sozinha num lugar que eu não conhecia, sem ninguém para ajudar. Tudo o que eu pensava era o quão malvada você era. Depois veio a magoa. Uma magoa terrível, que confesso que ainda não passou por completo, e uma vontade de entender. Porque? Porque abandonar alguém daquele jeito? E então veio a terceira fase e foi a de destruir evidências. Fingir que nada tinha acontecido nos últimos, sei lá, sete anos? Por incrível que pareça funcionou muito bem. Outro dia me peguei tendo que realmente me esforçar para lembrar o nome de algumas pessoas. E foi só do ano passado. O cérebro humano é realmente incrível não é? Mas não parou por ai. Fotos, presentes, cartas, foi tudo para o lixo, em um piscar de olhos.
Comecei a fugir de você como o diabo foge da cruz. Mas numa cidade desse tamanho? Uma hora vai acabar acontecendo... Já pensei em todos os cenários possíveis e em nenhum deles eu estou pronta. Sabe porque? Por que eu ainda te culpo por muita coisa. Só agora eu consigo entender que tenho a minha parcela de culpa também. Mas não se abandona alguém doente e é isso que me custa a entender... Eu sei que você é jovem e provavelmente estava tão assustada quanto eu. Principalmente por causa do meu comportamento, mas, sério que você não viu isso vindo? Há quanto tempo nos conhecíamos? Eu seguia tudo que todos me diziam para fazer, mas ainda assim tudo o que eu ouvia era Você não quer ficar melhor. Sabe, eu fico me perguntando se teria sido diferente se fosse qualquer outra doença... Mas de que adianta ficar remoendo isso agora? O estrago está feito.
Sabe, eu sei que pode ter sido demais para você. Mas se fosse ao contrário, eu nunca teria saído do seu lado e é isso que irrita tanto. Talvez tenha sido isso que motivou minha escolha de profissão e se foi, muito obrigada.
Eu sinto como se estivesse falando e falando sem chegar a ponto algum. Você me magoou. Tanto que é até difícil de explicar. Mas eu estou começando a curar. Espero, um dia, esquecer que você fez parte da minha vida, por que, não, os momentos bons não valeram a pena. Mas eu entendo o seu lado. Talvez você não fosse forte o suficiente para ver alguém morrer aos poucos (e não são minhas palavras) sem saber o que fazer. Mesmo que, para mim, não justifique.
E estou bem. Estou viva. E, a partir de agora, isso é tudo o que importa para mim. Esse é o adeus oficial, da melhor forma que eu sei fazer, escrevendo.
Letícia.
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